Fogueira Em Alto Mar é, então, essa dualidade que o ser humano carrega dentro de si. Há uma vontade de ir e queimar, mas também há um medo da imensidão, da intensidade do frio, da potência da não reciprocidade.

Escrever sobre um trabalho de um artista envolve uma mútua e verdadeira troca de sentimentos. De um lado há alguém doando arte, alguém que argumenta, de alguma forma, para convencer nossos sentimentos. É um claro convite para que possamos nos abrir para o tempo e a sabedoria. E, quando aceitamos esse caminho, inexoravelmente trilharemos o nosso caminho de evolução.

Evoluir é um caminho sem volta. É ter a certeza de que a involução não é mais a condutora da nossa própria vida.
Essas divagações iniciais são necessárias para quem faz do amor o grande e único tema central de sua vida.
Com o tempo eu percebi que ele, o amor, é palco e nós somos plateia, e ser plateia só tem sentido quando somos capazes de desabafar sem nos perder, sem esvaziar a essência primeira do que somos.

E é muito complexo falar de não se perder quando não há reciprocidade emocional.
Aliás, o tempo e a sabedoria são os meus fortes aliados e eles me permitem afirmar que o amor, sempre o amor, é o combustível de toda a vida, mesmo sem reciprocidade, mesmo que você projete no outro mais do que ele é capaz de te doar.

A falta de reciprocidade nos faz idealizar sem limites, não no sentido absurdo do conceito, mas no sentido poético, racional, mas extremamente poético.
Eu quis divagar essas pequenas reflexões sobre a vida para dizer que tudo bem se o seu amor é unilateral. Tudo bem se você ama alguém incapaz de te notar, de te abraçar, de chorar com você enquanto você o sente nos teus braços. Tudo bem se você ama alguém sem reciprocidade. A grande sacada da vida é perceber e entender o amor como o sentimento mais nobre que existe entre nós. Amar purifica, amar liga, amar conecta, amar é a nossa grande e preciosa chance de sermos essência, aquilo que somos, aquilo que nós fomos ordenados para ser aqui e agora, porque se estamos aqui é porque precisamos estar aqui.

Devaneios existenciais à parte, peço licença para traçar alguns comentários extremamente pessoais sobre o novo disco da cantora Ana Carolina, intitulado “Fogueira Em Alto Mar”.

Fogueira em Alto Mar
Já no título é possível mergulhar em uma efervescência emocional que se parece duelar entre extremos psicológicos. O ouvinte tem a percepção de guerras emocionais, de conflitos, de uma grande luta de alguém que precisa se salvar de uma patente falta, falta de reciprocidade.

Fogueira é quente, é estável, é chama, é calor, é impulso, é atitude, é um olhar reverberado do interno para o externo, sem ponderações, de forma bem intuitiva e muito arriscada.
Alto Mar é movimento, é onda, é frio, misterioso, porém com possibilidades, com caminhos prestes a se tornar conhecido, porém com um “quê” de mistério e perigo.

Fogueira Em Alto Mar é, então, essa dualidade que o ser humano carrega dentro de si. Há uma vontade de ir e queimar, mas também há um medo da imensidão, da intensidade do frio, da potência da não reciprocidade.
Embora essa dualidade seja latente, há uma voz consciente e coerente com a sua história, com o seu nível de evolução emocional.

É que a exposição dessa dualidade pressupõe, ao menos no disco em análise, e ainda que não de forma absoluta um alto senso de equilíbrio, de “selflove“.
Fogueira Em Alto Mar faz um louvável balanço poético sem se perder, sem desmedida, ainda que exista carências afetivas abertas. A verdade é que, embora haja sentimentos emergenciais implorando por falas, o novo disco da Ana sabe ser coerente no seu discurso. A cantora mineira acertou ao apostar em um disco que inspira com a sua força emocional, com o seu nível de maturidade que flerta quase que todo o tempo com uma nostalgia de alguém que ainda é importante, alguém que assumiu uma posição de ser único, de ser brilhantemente o grande amor para quem toda a mensagem do disco é direcionada.

Ana Carolina

Fogueira Em Alto Mar começa com a balada radiofônica “Não Tem No Mapa”. Com refrão fácil, a faixa dá o tom de abertura do disco. Há uma falta, há um diálogo não terminado. Há devaneios de alguém que precisa trilhar caminhos e essa necessidade reverbera na próxima faixa intitulada “Fogueira em Alto Mar”.

Nessa segunda canção, a cantora Ana Carolina mostra o ponto central do disco. Com letra sofisticada, sem o refrão fácil da faixa anterior, há aqui um voz consciente da potência do seu amor e a ausência da reciprocidade não é problema, é solução ou solucionável. Isso é notável quando Ana diz “Eu vou te achar / nem que eu acenda uma fogueira em alto mar“. Claramente há um voz empoderada, no sentido de que a falta de um amor é o ponto de partida para caminhos otimistas e mesmo bem sucedido.

A seguir temos a faixa “O Tempo Se Transforma em Memória”, outra balada romântica que se conecta com a mensagem proposta pelo álbum.
Rompendo com a linha emocional das três primeiras canções, Ana Carolina apresenta a música “Da Vila Vintém Ao Fim do Mundo”, samba que tem os vocais da cantora Elza Soares. Particularmente, achei a música alheia à mensagem do disco. Aliás, é importante ressaltar que essa faixa não valoriza a voz da Elza Soares, uma das maiores vozes da música brasileira, que nessa canção não faz nada além de um “back-vocal” da Ana Carolina.
O disco continua com a música “1296 Mulheres” uma faixa absolutamente desnecessária no álbum e me causa espanto que a cantora Ana Carolina, com mais de 20 anos de carreira, tenha gravado uma música tão trivial como essa.

Se a ideia fosse mostrar uma música empoderada, a Ana esqueceu completamente da sua trajetória musical, da qual ela já fez excelentes canções com esse fim como “Eu Comi A Madonna”, “Homens e Mulheres” e “8 Estórias”.
“1296 Mulheres” é uma balada boba, para quem está começando a carreira, não para uma cantora do calibre da Ana Carolina.
Apesar do disco ter sido bem sucedido nas três primeiras faixas e ter se perdido completamente nos dois sambas seguintes, Ana parece retomar a razão e nos brinda com a linda “Canção Antiga”. Uma canção-desabafo. Um necessidade de silenciar-se sem contudo se involuir. É aqui que o discurso do álbum se reconecta novamente e leva o ouvinte a um seguro momento de reflexão, de reforma íntima, de auto-conhecimento. Há uma voz que reconhece as suas incertezas, mas não se deixa cair por causa delas. Um amor do passado, uma história não acabada, um discurso incompleto, um semi-vazio que pulsa, uma necessidade de voltar e recomeçar, recomeçar pelos erros, pela capacidade de ouvir e entender o outro, uma necessidade e uma possibilidade de reconciliação. Pra mim, é o momento mais alto do álbum.

Em seguida Ana Carolina nos apresenta a faixa “Tudo e Mais Um Pouco” outra balada romântica muito coerente com a proposta do álbum. “Dias Roubados”, retorna ao discurso iniciado em “Canção Antiga” e Ana Carolina mostra porque ela é, sem dúvida, uma das maiores cantores do Brasil das últimas décadas.
“Outra Vez Você” também merece atenção do ouvinte. Uma balada romântica que não foge de suas responsabilidades perante o disco.

Já em “Com Vista Para Amar” a Ana aposta em uma balada pop romântica, o que dá maior frescor ao álbum e o qualifica como um álbum contemporâneo e pelo menos aqui, solar.
A última faixa do disco, uma regravação, Ana aposta em “O Que É Que Há” para selar com chave de ouro a breve, mas lúcida mensagem do disco.

Fogueira Em Alto Mar é um disco coerente, com alguns erros em duas faixas, mas no geral é um disco mediano.
Aliás, o novo trabalho da cantora recupera a imagem da Ana Carolina, após o lançamento do estranho #AC.

Avaliação Cappuccino: Nota: 8.0.

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Top cappuccino: 20 discos nacionais de 2017

Eis abaixo a minha lista pessoal com os melhores discos nacionais de 2017. Divirtam-se!

#20 Gaya – Tiê

Gaya

Ainda que “Gaya” tenha uma atmosfera diametralmente oposta ao aclamado “Sweet Jardim”, a cantora Tiê mostrou um álbum, no mínimo, mediano.

#19 Japanese Food – Giovani Cidreira

Japanese Food

Queridinho em diversas listas de melhores listas de discos de 2017, “Japanese Food” é uma pedida obrigatória para quem gosta de música de qualidade e com  originalidade.

#18 Ottomatopeia – Otto

Ottomatopeia

Com uma sonoridade típicamente da nova geração da música brasileira, Ottomatopeia nos remete ao som de artistas como Karina Buhr. Ottomatopeia é um dos discos
alternativos que mais me chamou atenção em 2017.

#17 Adiante – Nevilton

Adiante

“Adiante” é uma das minhas grandes descobertas de 2017. Um disco que me lembra Thiago Pethit, porém, mais explosivo em termos sonoros.

#16 Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 – Don L

 

donl

Don L é um dos principais representantes da música rap do nosso país e Roteiro para Aïnouz, Vol. 3 não me deixa mentir.

#15 Heresia – Djonga

Heresia

Pra quem curte o som de Kendrick Lamar, “Heresia” segue a mesma linha do potente DAMN. Heresia é original e de longe um dos melhores registros de 2017.

#14 Tijolo por Tijolo – Braza

Tijolo por tijolo

Meio blasé, meio psicodélico, “Tijolo por Tijolo” é envolvente, versátil e coerente do início ao fim.

#13 Unlikely – Far From Alaska

Unlikely

O Rock Nacional também teve o seu momento de destaque em 2017. E, para representá-lo nada melhor do que o “Unlikely”.

#12 Meio Que Tudo É Um – Apanhador Só

Meio Que Tudo É Um

Apanhador Só é uma das melhores bandas alternativas do nosso país. “Meio Que Tudo É Um” segue o estilo agradável da banda e não decepciona em nenhuma faixa.

#11 Campos Neutrais – Vitor Ramil

Campos Neutrais

Tudo que Vitor Ramil faz se torna mágico, visceral. “Campos Neutrais” mostra porque Vitor Ramil é um dos meus cantores brasileiros preferidos de todos os tempos.

#10 Outro Lugar – Tetê Espíndola

Outro Lugar

“Outro Lugar” é boêmio, quase amargo. No fundo, ele é um um álbum que relata um “eu” em busca do seu lugar no sol.

#09 Selvagem – Angela Ro Ro

Selvagem

Angela Ro Ro dispensa apresentações. Com mais de 30 anos de carreira e acumulando diversos hits de sucesso, ela lançou o delicoso “Selvagem”. Um disco para se
comunicar do inicio ao fim.

#08 Sintoma – Castello Branco

Sintoma

Minimalista, introspectivo, experimental, “Sintoma” mostra o potencial criativo do cantor Castello Branco.

#07 Catto – Filipe Catto

Catto

Acompanho o trabalho do Filipe Catto desde o disco “Fôlego”. De lá até aqui Filipe lançou três discos de estúdio. Catto é um álbum que mostra todo o talento do Filipe
e mostra que ele é o dono de uma das maiores vozes da MPB da sua geração.

#06 Beijo Estranho – Vanguart

Beijo Estranho

Ainda que Beijo Estranho tenha uma sonoridade diferente do aclamado Muito Mais Que o Amor, a banda Vanguart conseguiu consquistar o seu público com um disco
inteligente e autêntico.

#05 Em Noite de Climão – Letrux

Em Noite de Climão

Bucólico, alternativo, irreverente, dançante, “Em Noite de Climão” é um disco potente e digno para figurar em qualquer lista de melhores discos nacionais de 2017.

#04 Recomeçar – Tim Bernardes

Recomeçar

As confissões de Tim Bernardes em “Recomeçar” soaram como um grande pedido pra gente analisar a nossa própria desordem.

#03 Todas As Bandeiras – Maglore

todas as bandeiras

“Todas As Bandeiras é um disco de amor-alto-astral. Solar, sem ser descompromissado, o disco da banda Maglore é, na verdade, um ato de expressão, no seu maior alcance
possível.

#02 Galanga Livre – Rincon Sapiência

Galanga Livre

Galanga Livre é um disco que busca conectar elementos da história política do Brasil no presente e passado.

#01  Utopia – Thalles Cabral

utopia

O disco de estreia do Thalles poderia ser definido como um misto de devaneios de uma personalidade consciente da sua própria voz. Mais do que isso. Utopia não parte de
um vazio existencial, mas há algo que precisa ser preenchido e de forma não emergencial. Utopia é um retrato fiel de uma geração capaz de expressar sentimentos sob uma
ótica argumentativa, negando, ainda que involuntariamente, qualquer perspectiva de sofrimento doentio. Thalles coloca o amor entre extremos quase infinitos, como na
ótima “You, the Ocean and Me”. Talvez o amor não seja o ponto de partida desse disco. Ousaria a dizer, em uma interpretação extremamente pessoal, que Utopia parte da
capacidade de se fazer projeções filosóficas e coerentes para entender a vida como um ato impermanente e desconhecido. Daí, a atmosfera utópica do álbum. Utopia é, sem  dúvidas, um álbum para reflexão, para direção, para estabelecer conexões.

 

Top cappuccino: 20 discos internacionais de 2017

2017 foi um ano em que a música (mais uma vez) foi a minha principal arma em busca de um ponto zero de consciência emocional. Não foi um ano difícil e nem estranho Mas, ainda falta.

Eis abaixo a minha lista pessoal para os melhores discos de 2017. Enjoy it!

#20 Utopia – Björk

UTOPIA

Utopia é um disco difícil de ser entendido e aceito. E, pela sua dificuldade de compreensão (ou talvez do ouvinte), eu o considero como um dos discos mais arriscados do ano.

#19 Sacred Hearts Club – Foster the People

Sacred Hearts Club

Foster the People apareceu esse ano com o Sacred Hearts Club. Um disco cute e solar.

#18 Aromanticism – Moses Sumney

Aromanticism

Fechar uma lista de melhores álbuns de 2017 sem Aromanticism seria uma tremenda injustiça. Um disco que nos remete ao incrível Frank Ocean com seu Orange Channel.

#17 No Shape – Perfurme Genius

No Shape

No Shape é um disco pop que se encontra em melancolias e fragilidades emocionais envolventes.

#16 Wonderful Wonderful – The Killers

Wonderful Wonderful

Wonderful Wonderful mostra novos tons da banda The Killers. Temos ótimas canções como Some Kind Of Love.

#15 Poor David’s Almanack – David Rawlings

Poor David_s Almanack

Para os amantes de música folk, Poor David’s Almanack é um dos melhores discos de 2017.

#14 Sleep Well Beast – The National

Sleep Well Beast

Sleep Well Beast é para ouvir do início ao fim. Um dos discos que fizeram a diferença em 2017.

#13 Turn Out The Lights – Julien Baker

Turn Out The Lights

Turn Out The Lights é uma mistura de Florence e Lana Del Rey, sem perder a sua autenticidade. É, para mim, um dos grandes representantes da música indie.

#12 Masseduction – St. Vincent

Masseduction

Masseduction é sensual, dançante e encantador.

#11 Pleasure – Feist
20 Pleasure

Embora não seja tão bom quanto o fantástico The Reminder, Pleasure é um disco coerente e ótimo para dias aleatórios.

#10 Freedom Child – The Script

Freedom Child

Freedom Child é um disco noturno e muito bem enquadrado no estilo da banda.

#09 Something To Tell You – HAIM

Something To Tell You

Something To Tell You é um dos discos alternativos mais cool de 2017.

#08 Songs Of Experience – U2

Songs Of Experience

U2 nos mostrou com Songs Of Experience que eles ainda continuam sendo uma banda relevante e que eles tem muito o que nos mostrar.

#07 Everything Now – Arcade Fire

Everything Now

Everything Now é um disco vibrante, feito para mesclar todas as suas emoções de uma única só vez.

#06 As You Were – Liam Gallagher

As You Were

Liam Gallagher nos trouxe um ótimo trabalho solo. É um disco que você não pode deixar de ouvir.

#05 Beautiful Trauma – P!nk

Beautiful Trauma

Beautiful Trauma é um disco sobre o amor, essencialmente sobre possibilidades. P!nk não decepcionou nesse disco.

#04 ÷ – Ed Sheeran

÷

÷ é romântico, pop e irresistível.

#03 Melodrama – Lorde

Melodrama

David Bowie estava certo quando disse que Lorde seria o futuro da música. Melodrama é, para mim, a trilha sonora perfeita para 2017.

#02 Damn – Kendrick Lamar

Damn

Damm é potente do início ao fim. Um disco para ficar na história.

#01 American Teen – Khalid

American Teen

Khalid fez um dos melhores debut de 2017. Desde Frank Ocean com o seu Orange Channel não ouvi algo tão genuíno e atraente como American Teen.

Top cappuccino: 20 discos internacionais de 2016

Eu sempre vou acreditar que a língua não é uma barreira para quem precisa alcançar o seu conforto. Obrigado 2016!

#20 Wide Awake – Parachute

parachute
Parachute é um banda da década de 2000 que ainda vale a pena ouvir. Wide Awake é fruto do amadurecimento da banda, que aposta em letras e melodias sofisticadas.

#19 Oh My My – One Republic

onerepublic
Oh My My é um dos melhores registros da música pop. Um pop para dançar, se envolver, cantar, amar de uma forma menos dolorida.

#18 Strange Little Birds – Garbage

garbage
Strange Little Birds é um disco potente, a começar pela viciante “Sometimes”.

#17 Hopelessness – Anohni

anohni
Apostando em nova sonoridade, a cantora Anohni fez um disco memorável. Sem perder a pegada da era Antony and the Johnsons, o disco tem uma face interessante que vai de Lorde a Elliott Smith.

#16Paperweights – Roo Panes

roo-panes
Paperweights teve a árdua tarefa de suceder o potente “Little Giant”. Com certa margem de sucesso, Roo Panes conseguiu fazer um disco bom, mas emocionalmente menos carregado que o disco anterior.

#15 My Woman – Angel Olsen

angel
Com uma sonoridade às vezes intimista, às vezes pop-rock, My Woman é um disco que merece toda nossa atenção.

#14 Illuminate – Shawn Mendes

shawn
“Illuminate” aborda turbulências emocionais de uma forma quase que teórica. Shawn Mendes conseguiu fazer um disco no mínimo convincente. Aliás, já disse aqui, no meu post de melhores músicas internacionais do ano, que o cantor conseguiu nos provar que pode ser muito mais que um sexy cantor teen.

#13 Wrong Crowd – Tom Odell

tom
Transitando por um caminho mais comercial, Wrong Crowd mostra a versatilidade do cantor Tom Odell em fugir do folk triste para apostar no indie pop. Deu certo, só não posso dizer que tenha ficado melhor do que o aclamado Long Way Down.

#12 Schmilco – Wilco

wilco
Não poderia fechar a minha lista sem dizer para vocês escutarem Wilco. Schmilco é um disco que vale a pena escutar da primeira à última faixa.

#11 Young as the Morning Old as the Sea – Passenger

passenger
Passenger conseguiu fazer um ótimo sucessor para o brilhante Whispers II.

#10 This Is Acting – Sia

sia
This is Acting é assinado pela bem sucedida cantora e compositora Sia. Não dá pra falar muito sobre esse disco, o negócio é parar para ouvir e se arrepiar por completo em cada faixa.

#09 Red Earth & Pouring Rain – Bear’s Den

bears
Red Earth & Pouring Rain é um disco visceral e eu sei que eu deveria dizer algo menos previsível e menos repetível. Porém, essa é a palavra adequada.

#08 The Colour In Anything – James Blake

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The Colour in Anything é um disco intimista, mas não a ponto de ser um disco caótico. James Blake sabe até onde ir e ele foi muito bem nesse disco.

#07 Tell Me It’s Real – Seafret

seafret
Seafret é uma das grandes revelações de 2016. Tell Me it’s Real é um álbum para se apaixonar diariamente.

#06 Walls – Kings Of Leon

kings
Os meninos da banda Kings Of Leon fizeram um puta disco de rock. Wall é um disco que merece ser admirado sem limites.

#05 Back From The Edge – James Arthur

james
Um disco que flutua entre o pop, rock, folk. Back From The Edge é um disco bom, que representará muito bem o que de melhor tivemos em 2016.

#04 Blonde – Frank Ocean

frank
O segundo disco do cantor Frank Ocean não decepcionou os fãs. Blonde é marcante, seduz e te envolve fácil.

#03 A Moon Shaped Pool – Radiohead

radiohead
A Moon Shapped Pool é um disco coerente com a trajetória do grupo Radiohead. Um disco para você entender sobre o amor e outros temas com quem tem uma puta história registrada em discos.

#02 Blackstar – David Bowie

david
Por muito tempo, ao longo de 2016, eu encarei Blackstar como um disco problemático. Eu estava terrivelmente enganado. Blackstar é um disco complexo. Um disco sobre as veias humanas que escapam dos sentidos da grande média de pessoas. Bowie não fez um dos melhores discos do ano, Blackstar é histórico, disco da década.

#01 Encore Un Soir – Céline Dion

celine
Encore Un Soir é totalmente em francês. Mas, eu sempre vou acreditar que a língua não é uma barreira para quem precisa alcançar o seu conforto. Encore Un Soir veio para isso. Um disco para te confortar sem te cegar. Um disco inteligente e valente.

Top cappuccino: 20 músicas nacionais de 2016

A seguir, selecionamos as 20 melhores músicas nacionais de 2016.

#20 Assume Que Gosta – Matheus Brant

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“Assume Que Gosta” é um ótimo samba-eletrônico do cantor mineiro Matheus Brant. Pra quem curte a sonoridade do Seu Jorge vai perceber que essa faixa não decepciona.

#19 Poliamor – Barro

barro
O sotaque do Barro deixa “Poliamor” com um charme brasileiro irresistível. Pra quem curte Karina Buhr Poliamor vai soar como um vício certo.

#18 Cidadão Perdido – Romero Ferro

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Se você quer ouvir um artista completo, ouça Romero Ferro. Com o debut de estréia “Arsênico”, Romero Ferro já provou pra que veio. Difícil foi escolher uma música dele para figurarna lista melhores do ano. Cidadão Perdido é um bom começo.

#17 Quero Ir Pra a Bahia Com Você – Quarup

quarup
Com uma sonoridade dançante, “Quero Ir Pra Bahia Com Você” é uma das músicas lançadas em 2016 que não deveria ficar de fora de nenhuma lista de melhores músicas nacionais do ano.

#16 O Vento – Viratempo

viratempo
O Vento é daquelas canções que você  escuta para se sentir mais livre, menos inquieto, mais confiante na beleza do amor.

#15 Quiçá – Labaq

labaq
Quiçá é irresistivelmente linda, uma ótima trilha sonora para momentos introspectivos e incertos.

#14 Sorriso Besta – Jonathan Tadeu

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Não poderia fechar essa lista sem citar “Sorriso Besta” do Jonathan Tadeu. Com uma atmosfera otimista, Jonathan aborda inseguranças de forma mais leve e coloca a exauta a importância de um sorriso em um relacionamento.

#13 Volta – O Terno

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Das bandas alternativas brasileiras que lançaram disco em 2016, O Terno é, sem dúvida, uma das  melhores. “Volta” é um dos pontos altos do disco da banda paulista.

#12 Canção e Silêncio – Zé Manoel, Ana Carolina

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A releitura de “Canção e Silêncio” pela cantora Ana Carolina é um dos momentos mais marcantes da música nacional. No estilo piano e voz, Ana Carolina gravou a melhor música dos últimos quatros anos de sua carreira.

#11 O Mundo Lá Fora – Rapha Oliveira

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Soando meio romântico, meio pop, A canção “O Mundo Lá Fora” te conquista do começo ao fim sem ter, contudo, te prometido nada.

#10 Uma Canção Pra Você – Jaqueta Amarela – As Bahias e a Cozinha Mineira

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Com um ar meio decadencial, meio blasé, “Uma Canção Pra Você” é uma puta canção que tem o poder de nos acompanhar nos nossos momentos mais fossa de nossas vidas. Com um poder extraordinário de nos envolver por completo, “Uma Canção Pra Você” fez de 2016 um ótimo ano, ao menos musicalmente.

#09 Hit – Mahmundi

mahmundi
“Hit” é solar, é pop, é eletrônica, é Mahmundi. Pra quem curte o SILVA, vai se apaixonar por Hit.

#08 Amor Pixelado – Céu

ceu
Uma faixa que tem o amor como tema central e que abusa da leveza da sonoridade e da voz da cantora Céu. ‘Amor Pixelado’ é forte candidata a melhor faixa do ano.

#07 De Nós Dois – Mayam

mayam
Mayam é uma das grandes novidades de 2016. “De Nós Dois”, dueto com Maria Gadú é uma das faixas que fez 2016 valer a pena.

#06 Pensando Bem – Luiza Possi

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“Eu só queria dizer que eu tô aqui, eu tô aqui pra essas coisas”. Decididamente “Pensando Bem” é uma das melhores canções de 2016.

#05 Singular – Anavitória

anavitoria
Facilmente apontada como uma das grandes revelações do ano, Anavitória tem uma sonoridade indie-pop que conquista de imediato. “Singular” não me deixa estar errado.

#04 Sad Boys Club – Thalles Cabral

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Prestes a lançar o seu primeiro disco, intitulado “Utopia”, Thalles Cabral mostra em “Sad Boys Club” uma tristeza cantada com toques de subversão. “Sad Boys Club” soa como um jogo consciente dos seus devaneios, mas abertamente livre para poder não se importar tanto. A questão é que a felicidade é tratada aqui como um sentimento que pode e deve ser mesclado com as nossas adversidades, e tudo fica mais cool se fizermos isso com um bom toque de sadismo. Welcome back to the sad boys club!

#03 Sexto Andar – Fresno

fresno
A banda Fresno não decepcionou os fãs ao lançar o disco “A Sinfonia de Tudo Que Há”. Com uma voz marcante, talvez no melhor momento da banda, “Sexto Andar” aborda solidão, inseguranças e um misto de sentimentos doloridos que 2016 nos trouxe.

#02 Noturna (Nada de Novo na Noite) – Silva, Marisa Monte

silva
Noturna é uma canção perfeita para tentar colocar em ordem a própria confusão existencial.

#01 Descolonizada – Larissa Luz

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“Descolonizada” é uma balada empoderada e perfeita para potencializar toda a raiva internalizada em você.

Top cappuccino: 20 músicas internacionais de 2016

Ainda acredito no poder da música para catalisar essencialismos. É um processo-dever. É como se fosse um processo lento de recuperação, de vivenciar a sua própria fragilidade e encontrar [na música] a sua própria reabilitação. Música te dá força. Música te entorpece. Música não te deixa esquecer a sua própria realidade, ainda que ela se torne uma devastação insustentável. Eu sempre vou acreditar na música. Eu sempre vou entender a mim a partir de discursos introspectivos ou talvez nem tanto. A única certeza é que toda a dor que 2016 me trouxe foi atenuada pela música, aliás, no plural. E, ser plural aqui é uma forma de se entender por múltiplas vozes e tons. Essas são, enfim, as minhas 20 músicas do ano de 2016.

#20 Million Reasons – Lady Gaga

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Ainda que “Million Reasons” seja muito inferior às baladas românticas como You and I, Dope e Speechless, ela merece um lugar de destaque. Million Reasons é o carro chefe do estranho novo disco da Gaga.

#19 Brazil – Declan McKenna

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Declan McKenna é, pra mim, o responsável pela melhor música pop-chiclete de 2016. Ainda sem um álbum de estréia, Declan é um jovem cantor com ares de Arctic Monkeys +Foster the People. Brazil é um vício certo para quem pretende se entreter sem exigir nada em troca. É uma faixa para acontecer, ouvir, cantar e não se importar tanto.

#18 Ruin – Shawn Mendes

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Em “Ruin” Shawn Mendes consegue nos provar que pode ser muito mais que um sexy cantor teen. Com um discurso emocionalmente envolvente, “Ruin” tem uma pegada de jazz sem fugir do pop. O cantor consegue explorar sentimentos que discorrem sobre maturidade emocional, devaneios, incertezas e rupturas. “Ruin” é uma faixa bem produzida e te faz ter orgulho de ouvi-la porque você se identifica e encontra alguma espécie de alívio.

#17 I Know Better – John Legend

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Tratando de processos pessoais de crescimento/conhecimento/empoderamento, o cantor de R&B John Legend não decepciona em “I Know Better”. A voz marcante do cantor é acompanhada por um piano irresistível.

#16 Hey, I Won’t Break Your Heart – Corinne Bailey Rae

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Discorrendo sobre amor, expectativas frustradas e sobre uma crença em uma provável reconciliação, Corinne fez, sem dúvidas, uma das melhores músicas do ano.

#15 Angela – The Lumineers

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Angela fala sobre rompimentos e sobre a fé em novos tempos. É uma balada romântica para dias cinzas ou para momentos não tão agradáveis.

#14Magnetised – Tom Odell

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Visceralmente pop, “Magnetised” nos revela um Tom Odell pronto para as pistas noturnas. Nessa faixa, que pode ser considerada uma das melhores do disco, Tom Odell demonstra a sua necessidade de abordar a falta do amor na sua vida e ao mesmo tempo reafirma a sua perseverança em continuar o seu caminho, ainda que incerto e meramente experimental.

#13 Onde Quero Estar – Paulo Sousa

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Diretamente de Portugal, a balada “Onde Quero Estar” soa muito bem aqui no Brasil. Com uma voz irresistível e acompanhada por um piano, Paulo Sousa fez uma das faixas mais lindas do ano. Uma faixa sobre amor, sobre inseguranças, sobre dependências emocionais. “Onde Eu Quero Estar” é uma canção para amar ou no mínimo para quem entende o amor como um caminho irreversível.

#12 Kids – OneRepublic

onerepublic
Kids é uma balada pop que fala sobre um sentimento de estar cheio de si mesmo. Há um discurso que tenta estabelecer uma linha de conforto ou um denominador comum entre presente e passado.

#11 Everything – Parachute

parachute
Parachute é uma daquelas bandas da década de 2000 que ainda vale a pena ouvir. E, em 2016 a maior prova disso é a intimista “Everything”.

#10 I Need A Forest Fire – James Blake

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“I Need a Forest Fire” é uma canção com um ar fortemente decadencial. James Blake explora um discurso que procura o seu ponto de equilíbrio em meio ao seu próprio caos.

#09 Nikes – Frank Ocean

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Frank Ocean conseguiu satisfazer as expectativas em torno do seu aguardado segundo álbum. A prova disso é a potente “Nikes”. Uma faixa que faz críticas comportamentais, críticas sobre consumo, além de ser deliciosamente irreverente.

#08 Alive – Sia

sia
“Alive” é sobre superação, sobre continuar respirando a cada tempestade que entramos, ainda que por pura inexperiência.

#07 Home – Passenger

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Em 2015, o cappuccino POP elegeu o disco do Passenger como o melhor do ano. Em 2016 o cantor volta com outro grande disco. “Home” é uma faixa que aborda insensibilidade, medo, coragem, definições, e principalmente, amor sob a perspectiva da instabilidade.

#06 Walls – Kings Of Leon

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Walls é uma balada romântica que fala sobre lutar, sobre a necessidade de criar coragem para caminhar, mesmo que sozinho.

#05 Burn The Witch – Radiohead

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Muito mais que uma faixa experimental, “Burn The Witch” é uma faixa de cunho político, notadamente sobre sistemas políticos autoritários e sobre a crise global de refugiados.

#04 Oceans – Seafret

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“Oceans” é uma balada romântica em que prevalece a vontade de amar, incondicionalmente. Esta é uma canção para nos lembrar que o amor não pode deixar de ser um sentimento extraordinário. Nessa faixa o amor é retratado de maneira delicada e da forma como ele verdadeiramente é. Contemplativa sem ser superficial, Oceans é uma ótima canção para se declarar, se permitir e entender que o amor está nas pequenas coisas, como no toque, no beijo, no cuidado, na atenção, no diálogo, enfim, na nossa capacidade de ser incríveis juntos.

#03 Carry On – Norah Jones

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Norah Jones , na nossa opinião, é a responsável por ter feito a melhor balada romântica de 2016. Carry On é delicada nas melodias e intensa no que quer falar. Há um discurso de crises, de palavras que não deveriam ter sido ditas, de fatos que não deveriam ter acontecido. Mas, a beleza de Carry On reside simplesmente na vontade de querer seguir em frente, de [re]estabelecer um relacionamento que, apesar de tudo, ainda é importante.

#02 I Am – James Arthur

James Arthur
Em “I Am” James Arthur demonstra a impossibilidade de se definir por completo. Melhor, o cantor tenta fugir de parâmetros definíveis ou mesmo previsíveis de si mesmo. Há uma tentativa bem sucedida de desconstruir falsas construções acerca da sua própria personalidade. Uma canção com forte influência de rock, “I Am” mostra um “eu” em chamas, em busca de se impor, ao menos o seu discurso de [auto]afirmação.

#01 Encore un Soir – Céline Dion

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Encore un Soir de longe foi a música mais importante na minha vida e eu assumi a responsabilidade [pelo menos aqui] de colocá-la como a melhor faixa do ano. Encore un Soir trata do mais importante sentimento humano e que é negligenciado por grande parte da humanidade. Um sentimento que está acima do amor e que não é tão enigmático assim. Encore un Soir é uma mantra protetor para quem entende que nem a proteção é definitiva. Cantada em francês, a sua importância emocional é, sem dúvida, multicultural. Encore un Soir é verdadeira, ainda que a verdade seja difícil de ser aceita. E é aí que reside a delicadeza dessa canção. Não temos o poder de escolher a verdade. Não temos o poder de absolutamente nada e talvez somente a partir dessa tomada de consciência que seremos humanos verdadeiramente.

Em “In A Perfect World” encontramos uma confissão de sentimentos íntegros em busca de algum entendimento, de algum fortalecimento, ainda que exista uma atmosfera existencial indefinida e ferida.

Amar é um ato poético, mas nem por isso deixa de ser controverso. É enigmático, precisamente. A gente não aprende amar. Mas, é colecionando tentativas que a gente descobre ao menos o seu inverso. Não um inverso literal. É um inverso imposto. É um quase sempre momento para reflexão. E, refletir muitas vezes não será a solução. Porque, mais uma vez, amar é controverso. É um controverso que a gente insiste em dizer disfarçadamente que é puramente poético.

Amar é uma autodestruição visceral. Porque a gente se perde cada vez que amar se resume a um ato de loucura, um ato de ilusão, um ato inacabado. Amar é entender que o amor não é a regra e muito menos a exceção. A gente se perde. Sim. É uma perda caracterizada por erros de abordagens. Uma perda que tem voz.

Perdemos não só porque somos provisórios. Perdemos porque somos ingênuos e a ingenuidade não é poético, muito menos controverso. Amamos e acreditamos que o nosso amor, por ser nosso, sempre será unanimidade. Mas, em certa altura da vida já posso reiterar, ainda que em excesso, que o amor não é unânime e que ele é controverso e a gente esquece disso, a gente força contextos.

E quando não alcançamos os nossos almejados contextos a gente cai. Eu não disse tropeça, eu disse cai, perigosamente. E é quando caímos que buscamos algo para nos dizer o que já deveríamos saber desde o começo: o amor é poético, o amor é controverso, o amor não é unanimidade.

Há um impasse. Há conclusões amargas e há um “eu” que precisa se levantar. Porque cair é muito fácil. O difícil é se levantar sabendo que a gente caiu porque o chão estava muito distante de nós. Isso. A gente precisa de chão. Porque voar às vezes é muito arriscado. É libertador, inquestionavelmente.

Mas, voar pressupõe ter um plano de voo. Sem ele estamos abrindo todas as possibilidades para que o amor, além de poético e controverso, mostre ser um sentimento vazio e insensível. A culpa não é do amor, é da importância que damos. Talvez mais do que isso. Há uma culpa. Há análises emocionais que vão confrontar as nossas próprias ações e surgirá uma necessidade de um grande grito por ajuda.E só haverá algum sentido no nosso grito se entendermos que a perfeição é um caminho árduo e que não vale a pena.

Não gosto e realmente não vou sintetizar. Mas, para continuar eu definitivamente preciso contextualizar. Desta vez o disco se chama “In A Perfect World”. É um disco que quer construir a partir da desconstrução. É um disco alerta. “In A Perfect World” é um álbum que denuncia o lado amargo da (nossa) ignorância emocional. Apoiado em uma atmosfera fortemente decadencial, Kodaline explora um discurso que busca o seu ponto de equilíbrio no meio de um caos provocado genuinamente por erros de abordagens. Em “In A Perfect World”encontramos uma confissão de sentimentos íntegros em busca de algum entendimento, de algum fortalecimento, ainda que exista uma atmosfera existencial indefinida e ferida.

E é aqui que surge o elo entre minhas declarações iniciais e o disco em análise. “In A Perfect World” é um elo perfeito para nos provar o que ignoramos propositalmente. Ignoramos o que o amor pode ser e fazemos questão de vê-lo como o que realmente queremos que ele seja. E, talvez somente nesse exato momento que precisaremos buscar a nossa válvula de escape. Só a partir do momento que entendemos que damos importância demais para algo que é poético demais e controverso demais que entenderemos que, em algum momento da nossa vida precisaremos desacelerar as nossas próprias emoções.

Fazendo uma imersão irrestrita no álbum “In A Perfect World” da banda Kodaline, com certa margem de segurança encontraremos algumas certezas. Claro que não serão certezas imutáveis. São certezas capazes de abrir novos horizontes, novas percepções. In A Perfect World trabalha com a ideia de um mundo perfeito. Melhor. Há uma tentativa de desconstruir esse mundo perfeito. Porque a perfeição é uma construção poética, controversa e não unânime.

E, isso fica muito claro quando tentamos entendê-la a partir do amor. Acredito que uma parte importante da nossa vida seja poder aprender sobre a importância de ceder. Eu não diria que se trata de um ato de reconhecer uma perda. Acredito que seja um ato para reconhecer algo inerente à nossa existência, que poderíamos chamar de um ato de alívio.

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“In A Perfect World” abre com a faixa “One Day”, que é, em verdade, uma segura lição para toda a vida. Aqui há uma abordagem do ponto de vista da perda, do passageiro, da desconstrução das nossas percepções equivocadas. One Day é uma canção que nos alerta para os riscos dos nossos falsos conceitos. Tentamos, equivocadamente, acreditar que o que sentimos é algo que irá se sustentar e que jamais irá se esvaecer. Não é só uma abordagem para nos alertar para o lado provisório da vida. É algo mais amplo, mais tato. É como uma voz nos dizendo que a instabilidade será a nossa melhor e pior amiga, o tempo todo. Ser instável ou viver em um mundo instável exige cautela. Há riscos. E a maior cautela aqui com certeza é perceber que não temos garantias nenhuma na vida. E, por isso, devemos encarar os nossos altos e baixos como “acordos temporários”.
One Day é uma canção que converge os nossos erros de abordagens em uma potente necessidade de gritar, de pedir ajuda. E, em todo momento há uma regra fundamental sendo trabalhada. É o fator tempo, um grande limitador de sonhos e desejos.

Já “All I Want” trabalha no aspecto contemplativo do amor. Partindo de um adeus, All I Want aponta a existência de uma história inacabada ou em outras palavras, ela trabalha o amor como um sentimento poético e que por isso, nesse contexto, podemos tudo, inclusive idealizar sem limites. Com um coração extremamente ferido, temos em All I Want um “eu” tomando a consciência de que o amar é controverso e que aquela história de dor é, em verdade, uma nova descoberta sobre a profundidade da vida.

Em seguida temos a faixa “Love Like This”. Nessa canção a banda Kodaline nos aponta a importância de aprender a desacelerar algumas emoções. É uma regra vital e implacável. Somos provisórios e o que sentimos também. O amor acaba e junto com ele devemos aprender a desapegar de todas as construções que fizemos, mesmo que elas sejam a nossa principal sustentação nessa vida.

Já na balada romântica “High Hopes”, Kodaline entende que recomeçar é um ato que estará à nossa disposição como a única alternativa e, por isso, não será fácil estabelecer um novo começo.Apesar da evidente insegurança de quem se propõe a começar de novo, nessa faixa encontramos um “eu” confiante no poder libertador de trilhar novos caminhos.

“Brand New Day”, por sua vez, mostra um discurso idealizador e otimista com relação ao futuro. E, talvez essa seja a melhor postura que podemos adotar diante da vida. Sem perder a noção da realidade, sobretudo a realidade de conceitos, podemos viver uma vida apostando em dias calmos.

A próxima canção é “After the Fall”. Um canção que trata da dificuldade de se trilhar caminhos indefensáveis. Muitas vezes a vida nos fará entender que os caminhos que idealizamos não foram feitos para nós. E, quando a vida nos dá vários indícios de que estamos indo para o lado errado, um sentimento gigantesco nascerá em nós e o nome disso se chamará vontade de desistir. Eis, então, a mensagem dessa canção: nessa trajetória de tomada de consciência iremos ter todos os motivos para desistir e não só desconstruir sentimentos. No final das contas, After the Fall nos diz que, às vezes, o tempo poderá nos ajudar a subverter a vontade de desistir em algo produtivo, ao menos no plano de tomada de consciência.

“Big Bad World” denuncia a dualidade existencial como uma grande prática recorrente em nossas vidas. Aqui, a ideia é deixar transparecer a noção de que não há nenhuma zona de conforto. E, vou mais além. Repetindo a fórmula de provisoriedade da vida, Big Bad World tenta fazer a sua vida valer a pena, ainda que seja marcada por indefinições, perdas, fracassos, inseguranças e um sem limites de sentimentos que existem e que nos fazem mal o tempo todo.

“All Comes Down” é pra mim o ponto alto do disco. Uma faixa com um poder devastador. All Comes Down tem o poder de roubar as lágrimas que você tanto vem se recusando a mostrá-la para o mundo. É aqui que há um ato de consciência explícito com relação ao amor. É aqui que há um “eu” confessando os seus erros de abordagens. É nessa canção que há um “eu” reconhecendo o lado devastador do amor. É exatamente aqui que o amor não cabe mais em um discurso poético. É aqui que há um discurso trabalhando na desconstrução de algo que se pensava ser unânime e perfeito. Isso. All Comes Down trabalha em um ato de consciência que, deliberadamente nos fará experimentar o peso de saber o que é a imperfeição.É um discurso forte e acontece no presente. Não é um discurso imparcial. É um discurso que está vivendo e construindo a partir das suas próprias dores. É como se até o respirar fosse algo complicado diante da verdadeira realidade dos fatos.

Em seguida temos “Talk”. Uma faixa que relata um “eu” vivenciando a nostalgia de um amor mal sucedido, mas que não se prende a ele. Apesar do sentimento de recordação, há um “eu” consciente de que as suas convicções de vida se sobrepõe a um idealismo poético e controverso.

Por sua vez, “Pray” denuncia um “eu” tocado por um contexto emocional marcado por uma grande perda. Ainda que ao longo do disco a banda Kodaline tenha discursado para um caminho de profunda consciência sobre a verdadeira essência da vida, nesta faixa a banda faz questão de explorar uma característica inerente ao ser humano: o sofrimento. Por mais que tenhamos a consciência de que não fomos feitos para sofrer, para sentir dor, não sabemos como evitá-los de uma só vez, ainda mais quando temos uma mente tão traiçoeira e imprevisível.

“Way Back When” demonstra o nível de consciência de um “eu” acerca do seu finito ciclo existencial. Aqui, a saudade aparece como um sentimento superior a qualquer nível de certeza. Porém, a saudade é contemplativa porque não há a menor tentativa de negar a realidade das coisas. De forma muito forte Kodaline deixa sempre transparecer a ideia de que somos provisórios. E, essa característica tão difícil de ser aceita não é motivo para não termos a nossa dose de saudades, ao menos nessa canção.

“The Answer” é uma faixa que aposta em relatar uma relação de “win and lose”.Eu diria que é um relato despreocupado em encontrar respostas. Na verdade, não há uma busca propriamente dita. O que há, e se realmente há, é uma necessidade de se blindar contra a solidão, contra falsas concepções, sobretudo aquelas que nos são impostas.

Já quase no fim do álbum temos a faixa “Perfect World”. Uma canção que trabalha na ideia de um mundo perfeito. Esse mundo é retratado de forma simplista e quase que de forme utópica. Não há uma negação à existência desse mundo perfeito. Ele é venerado e talvez seja o motivo para respirar no meio do nosso próprio caos. Acredito que esse mundo soe melhor em um sentido figurado. melhor. Em um sentido que nos sirva como motivação para seguir em frente, sem nos  perder ao longo dos nossos devaneios existenciais.

A última faixa do disco é “Lose Your Mind”. Nesta canção temos um mundo imaginário descrito por um “eu” possivelmente em algum estado de alteração psicológica (leia-se drogado). É a única faixa que destoa da mensagem global do disco, mas isso não tira o brilho e o peso emocional contido em “In A Perfect World”.

Avaliação Cappuccino: Nota: 9,3.