#AC é uma coletânea de 12 músicas escolhidas aleatoriamente que não guardam coesão entre si

AC2

“Life imitates art far more than art imitates Life”

Já dizia o escritor irlandês Oscar Wilde que “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida” De fato, é uma frase carregada de algum cunho de veracidade, mas, o seu caráter absoluto deve ser rechaçado. No meu caso, entendo ter bons argumentos para sustentar a relatividade do pensamento de Wilde. Adianto desde já que argumentos são argumentos e eles visam apoiar uma ideia, uma percepção de uma realidade ao menos pré-estabelecida. Como tal, argumentos não são absolutos, e, aqui, são meras intuições acerca de um trabalho musical, escolhido para ser objeto de análise deste post.
 
Trata-se de “#AC” (leia-se: hashtag AC), novo álbum lançado pela cantora Ana Carolina. No seu mais recente trabalho, temos a prova da relatividade da frase de Oscar Wilde. Claramente, temos a arte imitando a vida, descaradamente.  Pra mim, parece (parecia?) inconcebível um álbum de inéditas inspirar-se numa linguagem informal, contemporânea e fruto de guetos sociais. As chamadas hashtags são linguagens criadas no (e até então para) twitter, uma das mais importantes redes sociais do mundo. Todos sabem que com as redes sociais, o público criou o seu próprio nicho, se tornou independente, protagonistas de seu próprio mercado de consumo e de formação de opinião. 
 
Ora, é válido, a arte copiar a vida, criada pelas redes sociais? Parece-me um pouco estranho e pouco criativo, a priori. Ao criar uma linguagem pré-existente para definir o nome do seu álbum, Ana Carolina erra, pois, a originalidade consiste em trazer para o público algo não visto. Com o nome do novo álbum, Ana Carolina talvez tenha tentado se popularizar nas redes sociais, que até há pouco tempo ela se negava a fazê-lo. De outro lado, o nome do novo trabalho pode ser uma tentativa de se aproximar do seu público, de reduzir o abismo criado pela cantora entre ela e este. Abismo que se traduz numa quase verdade de ser absolutamente inalcançável um fã conhecê-la. Um abismo sorrateiro e que cria uma imagem de uma cantora antipática com seu público.  Talvez, o nome do disco tenha sido uma escolha errada com objetivos válidos. Se a intenção é se aproximar dos fãs, o #AC pode ser um caminho, mas, o nome de um álbum é insuficiente. A aproximação a que pretende a cantora depende muito mais dela do que um simples e corriqueiro nome de álbum.
 
Deixando de lado a questão do nome, #AC contém 12 faixas inéditas, que de longe se aproxima do trabalho da cantora que conquistou o Brasil e a consagrou como uma das maiores cantoras da atualidade e uma das principais porta-vozes da juventude gay.  O álbum abre com “Pole Dance”, uma canção que lembra “Ela é Bamba” no seu ritmo e na sua força contagiante. É uma das maiores faixas do álbum, porém, é cansativa, de refrão fácil, quase que de uma música sertaneja.  Em seguida, Ana Carolina mostra “Esperta”, uma canção com ares de “Rosas”, mas, não conquista, não embala, e não desperta vontade de escutá-la até o final. “Combustível”, escolhida para ser a primeira música de trabalho me parece uma versão de “Problemas” descartada. “Combustível começa a esquentar e a aguçar a curiosidade em torno do novo álbum da Ana, mas ela parece ser mais uma sucessão de rimas chatas com sufixos “ida” (Bandida, partida, suicida, vida, saída, despedida), do que um grande primeiro single. “Resposta da Rita” que tem vocais de Chico Buarque é um samba bom, bem feito, sofisticado, com cara de Ana Carolina. Porém, Essa canção desconfigura o álbum inteiro, que tem a priori, cara de pop.
 
Inconcebível que Ana Carolina misture um samba num álbum genuinamente pop, mesmo que seja um pop tímido e pobre. Em tempo, #AC tem sido classificado como um álbum pop. Pra mim, não sei que tipo de pop a critica quer se referir. Não pode ser um pop eletrônico, muito menos um pop transcendental. Até se pode considerar que #AC tenha cara de pop, mas deixa a desejar. No novo álbum, Ana tenta fugir do estilo MPB, mas, tem medo de ousar demais. Com #AC, Ana Carolina inaugura um grande dilema na sua carreira: O que é mais importante, querer inovar e conquistar um novo público alvo ou, manter as raízes já consagradas e manter a satisfação do seu (grande e fiel) público? Parece me que Ana Carolina quis inovar, porém, ela caminhou para o caminho errado.
 
#AC pode ser pop, mas é um pop tímido e desalinhado. Não me refiro ás grandes cantoras de pop do mundo, até porque, o Brasil tem grandes nomes de cantoras e cantores que estão crescendo e fazendo uma nova vertente de pop, que se desdobra em pop transcendental ou até mesmo pop florestal. Estilo musical á parte, a próxima faixa do novo álbum da Ana Carolina é “Pelo iPhone”, um samba transvestido de bossa nova. Longe da maravilhosa “Tá Rindo, é?”, “Pelo iPhone” não prende nossa atenção, não narra uma grande história, pelo contrário, é um retrato da rotina de grande parte das pessoas conectadas ao mundo digital. Em seguida, há “Mais Forte”, um tango que começa a dizer que Ana Carolina de fato está de álbum novo. É uma canção mediana, porém, com pegada já vista em  “10 Minutos”. Já na sétima faixa, tem-se “Bang Bang 2”. Uma faixa que rompe de vez com o estilo da Ana que a consagrou. Se alguém esperava algo romântico como “Carvão”, “Quem de Nós Dois”, “Pra Rua Me Levar”, verá com “Bang Bang 2” que definitivamente #AC é tudo, menos um álbum pop romântico.
 
“Canção para Ti” tem linguagem sofisticada assim como “As Telas e Elas”, tão sofisticada que não prende atenção e não desperta um desejo ardente de sair cantando Ana pela casa a fora. Em seguida, “Un Sueno Bajo El Agua” chega para salvar o álbum da Ana Carolina. Essa canção é pra mim, a maior canção do novo trabalho da Ana, com cara de “Era”. Ana fala para o seu público gay e ao mesmo tempo para a sociedade: “Você que se choca ao ver que no Rio o beijo gay já não choca mais”. Talvez, a grande mensagem da canção é o desejo de se render ao casamento homoafetivo, que ainda não tem lei específica no Brasil, apesar de julgados do STF no sentido da possibilidade de união estável e de amplas decisões judiciais autorizando o casamento gay.
 
“Un Sueno Bajo el agua” pode ser entendido como o sonho de se casar abaixo (apesar) dos olhos da sociedade. É uma canção com linguagem difícil e que certamente não é uma canção feita para tocar exaustivamente nas rádios como “É isso aí”. “Luz Acesa” dá prosseguimento ao álbum e lembra o estilo da Ana Carolina dos seus álbuns anteriores, no mesmo estilo de “Carvão”, “Ruas de Outono” e “Dentro”. “Luz Acesa” é uma grande composição e Ana Carolina a interpreta da forma que só ela sabe fazer. “Leveza de valsa” é uma canção com arranjos sombrios e fortes, porém a letra não convence, é forçada a querer ser emblemática e diz para o público que o álbum está terminando sem um grande single, sem uma grande mensagem, sem Ana Carolina ser Ana Carolina. Faltou romantismo, faltou MPB ou, se a intenção era inovar, faltou inovação. #AC é uma coletânea de 12 músicas escolhidas aleatoriamente que não guardam coesão entre si.  Apesar de #AC, eu gosto muito do trabalho da Ana Carolina e espero que para o próximo álbum ela tenha um pouco mais de lucidez musical.
 
A Faixa “Libido” não foi objeto de análise nesse post.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s