Long Way Down:Tom Odell mostra que a instabilidade diante do amor é a grande temática do seu álbum

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Analisar um álbum de debut inspira um cuidado maior com as palavras na medida em que elas devem surgir no contexto (emocional/musical) em que  realmente foram concebidas. Mais do que isso, ter como objeto um álbum de estreia é fluir entre sentimentos pessoais e estranhos a nós, com desejos mesmo que involuntários, de torná-los nossos ou qualquer coisa mais próxima de verdades sobre o amor universalmente aceitas. “Long Way Down” é o debut do britânico Tom Odell, que de cara merece ser visto como um álbum coerente, persuasivo e que de certa forma testa nossas inabilidades. Sim, o próprio cantor disse em entrevista que o álbum é inspirado em sua “inabilidade de sustentar um relacionamento com alguém por mais que seis meses” (My inability to sustain a relationship with someone for longer than six months. – Tom  Odell).

“Long Way Down” que em tradução literal pode significar ” Longo caminho”,  é um obra de arte para confessar as nossas inabilidades para sustentar um relação estável e promissora. Talvez, a inabilidade não seja apenas nossa. Vivemos em um mundo muito limitado em termos de relações. As pessoas não se comunicam, elas estão em busca de algo muito aquém que uma relação de afeto. Somos uma sociedade que exalta o belo e que divide as pessoas em nichos, de acordo com tipo físico, gostos pessoais, religião, orientação sexual ou qualquer outro indicativo social. O que importa e o que temos que retirar dessa história é que somos inábeis, não valorizamos sentimentos, não lutamos por uma relação em que os dois sujeitos estão lado a lado, em uma relação vencer-vencer.  Não cedemos quando necessário. Não valorizamos o amor, não lutamos por ele. Aliás, o que de fato é o verdadeiro amor só será descoberto quando reconhecermos as nossas inabilidades, as nossas premissas falsas alimentadas por senso comum, senso acrítico e quase patogênico.

Long Way Down é um caminho, uma descida, uma longa descida que tem viés totalmente intimista. É a partir da nossa capacidade de autojulgamento que conseguiremos de fato nos entender. É reconhecendo quem realmente somos, quais são os nossos erros, quais são as nossas projeções equivocadas que saberemos ao menos tentar dar a volta por cima. O álbum de debut do Tom Odell nesse sentido soa sincero e merecedor de ser ouvido várias vezes, até que entendamos de vez tudo que queremos entender e por algum motivo (por que não por puro ego?) não entendemos.  Antes de analisar faixa a faixa, podemos classificar facilmente o estilo do Tom Odell como Indie e Folk, sendo da mesma forma, facilmente possível apontar suas influências, o que será devidamente apontada a seguir.

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O álbum começa com o piano minimalista apresentando a grandiosa “Grow Old With Me”. A faixa cresce e se torna uma balada irresistível que com suas batidas nos faz lembrar Coldplay em Viva La Vida ou até mesmo Florence + the Machine em No Light, No Light. A faixa traz aquele desejo que parece ser universal de envelhecer ao lado da pessoa que se ama.

Em seguida, em “Hold Me”, uma balada com batidas mais fortes com influências de Radiohead.  A canção traz um “eu” que está completamente em sintonia com o amor, a ponto de sentir os batimentos cardíacos com apenas um abraço. Aliás, um abraço pode se tornar tudo o que realmente queremos viver numa relação. Hold me é um grito, soa um desespero em fuga, dotado de uma sinceridade e tangibilidade clara e objetiva.

Já em “Another Love” há a mensagem principal do álbum. A inabilidade de um “eu” que quer amar apesar de tudo que é inerente á uma relação (I wanna cry and I wannna love/ Eu quero chorar, eu quero amar), Tom Odell mostra uma letra forte que expõe o lado humano de amar e errar. Aqui, tem-se um “eu” que talvez esteja perdido em outra relação. Na verdade, um “eu” frustrado por ter trilhado caminhos que não o levaram a lugar algum.  Tom nos diz “But all my tears have been used up on another love, another love/ Mas todas as minhas lágrimas têm sido desperdiçadas em outro amor, outro amor“.

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“I Know” é uma balada romântica que reclama o amor, que aqui, se mostra um amor ainda vivo, embora já não exista mais uma relação.  Terminar uma relação quase sempre é problemático porque nem sempre entendemos que tudo realmente acabou. Sempre há um desejo em querer voltar e fazer diferente.

 Em “Sense”, que pra mim é a faixa mais linda do álbum, temos uma letra bem intimista em que se luta em busca de sentidos.  Um “eu” evidenciado por mentiras do passado que custou a perda do grande amor. A voz do Tom, acompanhada com o piano nos lembra o imortal Jeff Buckley, não só na sonoridade, mas, na sua capacidade de tocar as pessoas com o seu sofrimento extremamente racional.

“Can’t Pretend”, próxima faixa do disco, é uma canção em que o “eu” expõe suas inseguranças sem se importar com julgamentos. A faixa já começa com o verso “Love, I have wounds, only you can mend/ Amor, eu tenho feridas que somente você pode curar“. Ás vezes fico pensando o quanto somos tolos em acreditar que a “cura” para as nossas inseguranças depende somente de alguém e pior, pela nossa insistente capacidade de idealizar o amor como um caminho perfeito. A perfeição não existe, ela é um caminho árduo que nem sempre vale a pena. Idealizamos o amor para crer que a perfeição é um caminho perfeito. Engano nosso. O amor é um sentimento estranho, mas válido. O amor é subjetivo, porém, com tendência universal. Todos o sentem, todos o sofrem. Todos, em algum momento da vida, hesitará e se sentirá preso, culpado, impotente diante do amor e não adianta fingir, lá no fundo saberemos o que realmente nos toca quando se trata dele.

Em “Till A Lost” Tom Odell mantém a linha e a veracidade do seu álbum. Em versos delicados como “And I didn’t feel your love until I lost/ E eu não senti o seu amor até que eu o perdi” Tom mostra que a instabilidade diante do amor é a grande temática do seu álbum. Na balada “Supposed To Be” Tom Odell demonstra suas angústias e suas demandas afetivas frustradas em versos como “Cause love always, love always is unkind/ Porque o amor sempre, o amor sempre é cruel“. Em seguida, “Long Way Down”, faixa que dá nome ao álbum, temos uma espécie de confidências (you know, it could talk in a language only we understand/ Você sabe, poderíamos falar em uma linguagem que só nós entendemos). É uma faixa sugestiva e que abre caminhos para Tom falar o que quer falar, e ele fala, fala tão bem que tudo parece ser nossos sentimentos captados e reunidos ao longo das 13 faixas.

“Sirens” é uma forte candidata a melhor faixa do álbum. O piano faz com que a sua melodia se torne  sofisticada e autêntica. A letra trata de urgências, talvez urgências afetivas, urgências em arrumar a nossa vida. Urgência em domar sentimentos e não sentir tanto medo.  As sirenes que tratam a letra é uma espécie de alerta. Alerta de que o tempo é curto e a vida pode acabar sem que tenhamos amado verdadeiramente ou que tenhamos aprendido a ceder nossos egoísmos para nos permitir a amar. Próximo de encerrar o disco, Tom Odell nos apresenta “I Think It’s Going To Rain Today”, uma crítica contundente de como não valorizamos o amor, e de modo geral, como as relações sociais são superficiais e não confiáveis ( Ele compara uma latinha velha na rua á um amigo. A ponto de dizer que irá chutar a latinha, que de certa forma, representa a necessidade de romper com amizades falsas).

Chegando à penúltima canção, temos “Storms”. Tom adota uma linguagem mais otimista dizendo para o seu ouvinte que precisamos de tempestades em nossas vidas. Afinal, não há um velho ditado que diz que apreendemos com os nossos erros? (I need one of these storms, one of these storms, one of these storms to wash me clean / Eu preciso de uma dessas tempestades, uma dessas tempestades, uma dessas tempestades para me purificar).

Por fim, Long Way Down encerra com a faixa “Heal”. Um primor de canção, uma nostalgia exacerbada. Tom encerra o seu álbum com classe, ele implora para ser curado, como se o amor fosse uma verdadeira patologia. Talvez realmente seja, talvez o amor seja uma grande patologia da alma. “Take my heart and take my hand like an ocean takes the dirty sands and heal/ Pegue meu coração e leve minha mão como um oceano toma as areias sujas e cure-o”).

Long way Down é um clássico contemporâneo, com fortes e ótimas influências de Jeff Barckley, Coldplay, Radiohead e até mesmo James Blake.

A seguir 5 canções de Long Way Down que você precisa ouvir:

01. Another Love

02. Sirens

03. Grow Old With Me

04. Sense

05. Hold Me

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