Sábado é um disco em que a tristeza é um status permanente e o sujeito parece não estar preocupado com um status quo ante.

Muito mais que um disco temático, “Sábado” é um disco que narra perturbações emocionais do nosso cotidiano. É um disco em que a tristeza é um status permanente e o sujeito parece não estar preocupado com um status quo ante. A tristeza é a personagem central, porém, temos que ter em mente que o eu triste não é direto e não sabe ou não pretende sê-lo. Trata-se de uma tristeza vagante, uma tristeza que faz parceria coma a solidão.  Um sujeito que fala do amor, de um amor quase corrompido, quase inotável. O amor é a causa final de um sentimento escondido, indecifrável, nostálgico e cotidiano. “Sábado” é contínuo nas suas incertezas. O que se sabe é que o seu tema maior é um conjunto de perturbações que são coletivas e quase sempre impossíveis de ser descritas com tanta precisão. E no “Sábado”, essa precisão é presumida. Presumimos o que está tentando ser dito. Mais do que isso. “Sábado” parece ser uma releitura de sentimentos que despertam medo por um vazio existencial, mesmo que a maturidade do ser esteja entre linhas em cada acorde ou em cada verso, que pode não ter sentido em sua forma literal. È por detrás da literalidade dos versos de “Sábado” que reside o fator de ser entendido sem que o eu precise dizer ou, sem que o eu já não saiba como e porque dizer.

 
Capa - Sábado - Cícero
 

Sábado pode parecer a princípio vago e descontínuo, porém, expressa verdadeiramente o que somos e como expressamos nosso estado de angústia passional. “Sábado” não é direto e exige que o seu ouvinte tenha uma linha de conexão capaz de decifrá-lo por sentir-se e ser alguém perdido no amor, ou em sentimentos com ele correlato. Sábado não decifra, ao contrário, ele compartilha, muito embora o seu compartilhar seja muito maior que tristeza e angústia.  Estou dizendo que Sábado não é uma reflexão pessoal, é uma descrição de uma situação existencial em que muitos pretendem desfazer dela, só que sem saber como sem desfazer de si mesmo. Entendo que Sábado mostra um dilema em que o eu se confunde com sua própria situação existencial, situação marcada por angústias, tristezas e medos. Tenho em mente que Sábado não quer deixar nenhuma mensagem, ele não aponta caminhos, ele apenas descreve, como se os ouvintes fossem verdadeiros psicanalistas capazes de ouvir-se e se auto curar desse mal existencial.

 O amor, ou melhor, a falta dele, faz com que muitos de nós, sejamos pessoas centradas, coerentes e racionais. Características que estão em guerra com sentimentos como a angústia, tristeza e o medo. É como se o sujeito lutasse contra si mesmo. Ou nem isso. Não posso falar em guerra. O mais adequado talvez fosse uma vontade de superação e não mais submissão. Em Sábado, temos um sujeito que não quer mais submissão, mas, o que ele mais faz é dizer que é submisso, ao menos involuntariamente. Somos submissos por amar quem não nos ama. Somos submissos por transmitir o controle da nossa própria vida para alguém que nós supostamente pensamos ser dependentes afetivos. A submissão desperta essa sensação de fim de semana, de fim de tarde, de alguém que tem amor demais e em troca só tem a possibilidade de escrever sobre suas próprias dores, de ser analista de seus próprios erros e sentimentos. Sábado tem uma consciência abalada, marcada por um cansaço de viver. Lá no fundo, entre nossas angústias, temos a expectativa de dias melhores, de fins de tardes com histórias, pessoas e lugares.  Enfim, respiramos a cada fim de tarde por acreditar que elas serão em algum momento da nossa vida, um momento para recordar de como foi maravilhoso o nosso dia, mesmo que seja um dia sem grandes histórias, sem grandes lugares, mas, com alguém que faz da nossa existência uma situação que realmente vale a pena.

 Cícero

 O álbum começa com a faixa “Fuga Nº 4 da Rua Nestor”. Trata-se de um eu prestes á explosão, que hesita, que usa de figuras de linguagens para expressar um sujeito que quer fugir de tudo, mas, lá no fundo tem esperanças em si mesmo.  Um sujeito que se compara a um caminhão de gás, um risco eminente pronto pra detonar tudo que está a sua volta, ou, no melhor contexto, para detonar tudo que está apertando o peito.

 É um desespero forte e quase suicida. Temos nessa faixa, alguém prestes a fazer tudo, que não suporta toda essa carga emotiva. Em seguida, temos “Capim-Limão”, uma faixa que testa a fé, a vida, em seu sentido generalista. Aqui, tem-se um sujeito marcado por dúvidas e que faz delas um status permanente, ao menos no presente contínuo. A terceira faixa é a “Ela e a Lata”, uma faixa que mostra um eu que tenta se apegar a qualquer coisa para fugir de si. Como se para vencer nossas angústias, nós nos apegássemos a qualquer coisa, como pintar, olhar para o céu, ver o trem passar, ou no contexto da música, prestar atenção no que vemos da janela do quarto. O álbum segue com “Fuga nº 4” que traz um sujeito pessimista em relação ao seu destino, ás suas próprias verdades. É como um eu que pretende revisar suas verdades, afinal, as próprias convicções não são suficientes e elas podem ser a causa de tanto tristeza.  É um dilema existencial que coloca em xeque o próprio destino e as próprias filosofias da vida.

 “Pra animar o bar” é um desejo, é uma vontade de vencer as próprias angústias e ter motivos para ser feliz.  A felicidade aqui é uma busca por sentido, uma busca para ser simples. “Por Botafogo” é uma canção que fala do amor, mas ele já parece esgotado, ele não é tema central. Aqui, o amor (ou a falta dele) parece ser a causa de problemas maiores, como decepções, solidão e mais uma vez, angústias generalizadas. Nessa canção, o sujeito se esforça para acreditar no amor. É como se alguém se esforçasse pra sair do quarto, para levantar da cama e olhar o pôr do sol. Um sujeito entregue a própria sorte, marcado por dias rasos e solitários. Um verdadeiro ambiente de alguém acompanhado pela solidão e que antes de se despedir do mundo, lembra que ainda existe amor dentro de si, e ele é o último combustível que alimenta a si próprio. “Duas quadras” traz um retrato da vida cotidiana, como se alguém esperando pela felicidade no ponto de ônibus. “Asa delta” é uma vontade de voar que está presente desde a primeira faixa e que aqui se torna mais direta e evidente. Já perto do fim do álbum, temos “Porta, retrato”, uma canção com ar mais otimista em que o eu aponta a causa de toda a sua tristeza a um amor unilateral e que diz que nenhuma tristeza vale a pena quando amamos e somos correspondidos. A última canção é “Frevo por Acaso”, com formato de carta-bilhete, é uma canção que encerra com ideias que são de todos nós: a nossa disponibilidade para amar. O sujeito se declara em tom confessional. É como amar alguém e antes de partir para outra, avisar para esse alguém que sempre estaremos disponíveis pra ela, o que de fato, retrata com fidelidade o que o amor faz com a gente.

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