O que fez do “21” se tornar um grande símbolo confessional foi o modo espontâneo de se expressar aliado a um balanço poético que flerta entre perder, reconhecer e querer dar a volta por cima

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Todo amor quando chega ao fim traz consigo uma espécie de caos em forma de desespero. Esse caos a que me refiro pode ser explicado por diversos ângulos, mas nenhum conseguirá ser mais infalível do que a arte de compor e atingir as pessoas por meio da música. Quando há um caos decorrente do amor e alguém consegue transformá-lo em um sentimento universal,  rapidamente reconhecemos e providenciamos tirar lições dele. Amor e caos parece ser uma constante na vida das pessoas, sobretudo daquelas que se entregam incondicionalmente e sem  nenhuma espécie de medo de errar. Parece que falo de alguma operação matemática, mas o fato é que quando nos comprometemos a amar alguém, necessariamente deveríamos estar preparados para o fator decepção. Quando alguém se sujeita ao amor e não leva em conta as decepções, certamente haverá um conflito emocional, conflito a que me referi acima como caos,  caos sentimental para ser mais preciso. Temos ou a grande maioria das pessoas têm o hábito de idealizar pessoas, de acreditar ingenuamente que quando há uma conexão pré-estabelecida e unilateral, o significado disso será sempre amor correspondido ou amor duradouro. Triste engano a que somos submetidos. Talvez por inexperiência, talvez por excesso de confiança ou até mesmo por uma necessidade de darmos o nosso último ultimato. O fato é que em algum momento da vida todos nós vamos querer amar e ser amado. Cedo ou tarde seremos conscientes de  que o amor é uma espécie de cura, cura de algo que convencionamos chamar de solidão.

Falar de quando perdemos no amor é arriscado porque necessariamente iremos confessar defeitos e erros e isso é assustador. A questão é que esse caos a que estamos condenados muitas vezes atinge o seu ponto máximo e se exterioriza por meio de uma linguagem universal e se torna a nossa grande válvula de escape E para falar desse assunto, isto é, pra falar sobre o amor
em sua face mais destruidora e incompreensível, nada melhor e mais justo do que falar do “21” segundo disco da cantora britânica Adele. “21” aborda o nosso maior ponto fraco diante de uma grande instabilidade afetiva. “21” mostra que a sua grande temática não é transformar o lado sorrateiro do amor em uma grande tragédia pessoal. Há uma linguagem muito mais ampla e completa. Com o seu disco Adele prioriza a volta por cima e faz questão de expor suas feridas e essa exposição é um modo inicial de dizer que tudo ficará bem. Adele fez um disco partindo de uma premissa comum: o término de um relacionamento e suas consequências emocionais. O que fez do “21” se tornar um grande símbolo confessional foi o modo espontâneo de se expressar aliado a um balanço poético que flerta entre perder, reconhecer e querer dar a volta por cima. Além de uma voz marcante, Adele escancara o seu lado poético em chamas, como se para salvar de sua própria ferida, fosse necessário partir do príncipio, das recordações, dos momentos correspondidos em seu grande auge. Acho que essa é uma grande lição. Aprender a seguir em frente relembrando o que foi vivido e fazer promessas de não estar mais disponível para decepções e traições. O amor em Adele é naturalmente trabalhado e em momento algum ela perde as esperanças. Essa é uma outra grande lição no álbum da britânica. O fim de um relacionamento não significa desacreditar no amor e ela transforma esse fim em uma nova missão.

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O álbum começa com a explosiva “Rolling In The Deep”, uma balada que detona versos cheios de toque de sadismo. Essa canção traz a ideia de cicatrizes do amor, cicatrizes que são trabalhadas com certo tom de volta por cima. É como confessar que o amor é importante, mas ser idiota por causa dele está fora de cogitação.Para “Humor Has It” Adele aborda um tom provocativo e cretino. Ela não se limita a sofrer pelo fato de ter sido trocada por outra. Pelo contrário, ela afirma que a outra nunca será melhor que
ela, afinal, como Adele mesmo diz: “You and I have history or don’t you remember? / Você e eu temos história ou você não se lembra?”

Faixa de número três “Turning Tables” surge acompanhada por um piano solitário e uma voz em guerra, em disputa, em busca de algo confiante. Adele está prestes a desabar, ela lamenta e analisa e sente uma nostalgia profunda. No final, ela diz o que todos nós precisamos ouvir, ela dá adeus áquelas reviravoltas sentimentais. “Don’t You Remember” pra mim é o ponto mais alto do álbum. Um canção que nasce triste para confessar que a tristeza é o nosso grande dilema. Don’t you remember é o retrato fiel do quanto
o amor pode ser incompreensível e o quanto ele é ácido quando ele quer. A distância, o término, a falta de diálogos, o desejo ardente de ter uma segunda chance, de ter uma nova oportunidade para pedir desculpas, para dar um beijo e idealizar um mundo sem limites e sem condições para ser feliz. “Don’t You Remember” atinge o nosso ponto fraco. Para quem já se perdeu em uma grande história conflituosa de amor, é o ponta pé para procurarmos em nós mesmos a nossa própria loucura e o nosso misterioso limite de suportar.

“Set Fire To The Rain” trata de projeções que depositamos em alguém e até vivemos. Porém, Projeções depositadas e/ou vividas são passageiras, ao menos nessa canção. “Set Fire To The Rain” aborda a lembrança dos melhores momentos do amor, uma espécie de retrospectiva em sofrimento. É como relembrar os melhores momentos quando se está na fossa, a um passo de
um grande abismo.”He Won’t Go” é mais uma grande prova que a instabilidade diante de um relacionamento supostamente perdido é a grande temática do álbum “21”. Supostamente porque a verdade sempre parece que está pra vir á tona. É como se lá no fundo nós acreditássemos que haverá uma reconciliação e o que fica entrelinhas nessa canção é que não é aconselhável aguardar por uma reconciliação, isso é arriscado demais.”Take It All” é uma música em formato de carta de despedida. Uma espécie de carta que ainda deixa transparecer uma última e pequena chance de reconciliação. Na verdade, Adele já confessa e reconhece que perdeu. Apesar dela já está abalada ela não cai, porque cair significa jogar as regras do jogo do amor de forma errada.

Faixa de número oito, “I’ll Be Waiting” é uma recaída e destoa do sentimento do álbum. I’ll be waiting” é um pequeno recado de que Adele estará ali esperando (pela reconciliação). “One and Only” flerta com I’ll Be Waiting” e traz a mesma voz otimista e á espera de uma continuação da história. “Lovesong” é a canção de amor literalmente. Trata-se do amor incondicional e infinito, algo como a poesia de Vinicius de Moraes.  Em seguida temos a poderosa “Someone Like You”, uma canção que mostra um ego mais maduro e convicto de que a volta por cima é apenas uma questão de tempo. ” Someone like you” é  uma espécie de auto-ajuda, para quem precisa superar o amor. As respostas e caminhos estão ali. A auto-confiança está exposta de uma forma induvidável. Confiar em si é o primeiro passo,  talvez o grande passo para quem quer seguir em frente. Não temos o que temer ou o que relembrar. Um amor perdido é complexo, mas toda essa complexidade não pode tomar o nosso lugar na vida e muito menos nos tirar o brilho de olhar pra frente e fazer projeções seguras e confiantes para nós mesmos. Amar de novo é apenas uma questão de querer e aceitar.

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