“Holding My Breath” está a serviço do amor, do seu aspecto deliberativo, dessa necessidade de atravessar madrugadas acompanhado por canções, silêncio e lágrimas.

Quando procuramos um saída para os nossos dilemas emocionais, não fazemos outra coisa do que iniciar uma profunda terapia de auto conhecimento. Deliberar sobre o amor, sobre o nosso lado emocional é muitas vezes uma tarefa complexa e que não sabemos o que queremos ou quais serão nossas conclusões.

Deliberar sobre o que perdemos, sobre o que não conquistamos, sobre a nossa capacidade passional de se influenciar por alguém, que no nosso imaginário assume posição de perfeição é algo um tanto quanto inocente e percussor de lições.

A arte de deliberar, no seu sentido mais genérico possível, é uma necessidade a que o amor (ou a busca dele) nos submete, sem ao menos se importar se somos capazes de suportar.
Refletir sobre as consequências do amor é tentar (com ou sem sucesso) entender a nossa mais profunda essência e a nossa posição enquanto humanos e seres á serviço da paixão.

Deliberação é uma inconstante procura do lado poético da solidão. Quem perde, quem nunca teve, quem se sente mergulhado nas próprias incertezas é um grande observador e captador, mesmo que inconsciente, de regras para criar seu próprio muro de proteção.
Refletir sobre o amor não é de nenhuma forma uma necessidade de deixar de amar. O que rola é que amamos quem não tem a capacidade de retribuir, de ceder, de estabelecer uma sintonia mínima para o nascimento de uma relação ou mesmo de sustentá-la. Uma relação unilateral é uma espécie de guerra silenciosa e eu não recomendo isso a ninguém. Deveríamos ( e isso é uma descoberta pessoal recente) estabelecer critérios mínimos para a possibilidade de uma paixão. Digo isso porque o amor procura por pessoas com alto grau de se entregarem facilmente, sem nenhuma oferta de resistência.

Deliberar sobre o amor tem essa coisa de nos dar asas para poder criar algumas crenças sobre ele, mesmo que não faça sentido algum para as demais pessoas.
A verdade é que só chegamos á algum consenso afetivo através de canções, e para ilustrar poeticamente o que eu pretendi dizer acima, nada melhor do “Holding My Breath” do cantor Jon Mclaughlin.

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“Holding My Breath” denuncia essa necessisdade de autodeliberação. Precisamos em algum momento da vida parar e olhar para o que somos, o que queremos e o que nos impede de ser.
“Holding My Breath” está a serviço do amor, do seu aspecto deliberativo, dessa necessidade de atravessar madrugadas acompanhado por canções, silêncio e lágrimas.
Jon Mclaughlin nos apresentou um álbum disfarçado de terapia afetiva. Mais do que isso, “Holding My Breath” é no fundo uma grande deliberação emocional, pessoal e figurativamente uma terapia para incentivar as pessoas a criar, estabelecer algum tipo de esperança. Não uma esperança desprotegida e insegura, mas uma esperança calcada na autovalorização. Uma esperança que antes de tudo dita as regras e sofrer de novo estará fora de cogitação.

Todo mundo perde para o amor, acho que isso deve ser um processo natural, afinal, eu tenho a convicção de que todo amor é uma espécie de seletividade.
Por mais que essa seleção seja sufocante , ela sempre estará em nossas vidas para nos lembrar que amar não é fácil e se fosse a arte de cantar solidão seria uma realidade utópica.

O álbum começa com a enlouquente “Above the Radio”. Uma das faixas contemporâneas mais verdadeiras e sensatas, a canção número 01 do disco, aborda essa questão de deliberar em silêncio, de guardar mágoas pra si, de se olhar e tentar entender o próprio destino e a linguagem do amor. “Above the Radio” ressalta o que todos nós já sabemos e que no nosso cotidiano acabamos por esquecer: Só temos uma vida, e não dá pra perdê-la com amores utópicos e que nunca sobreviveria e se estabeleceria. Em “Above the Radio” temos versos fortes como “You say I´m giving up but I´m just slowing down, to live my life for now / Você diz que eu estou desistindo, mas eu estou apenas desacelerando para viver a minha vida agora” e “I sore, and no one has to know. No, no one has to know / Estou ferido, e ninguém tem que saber. Não, ninguém tem que saber

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“Hallelujah” ficou para ocupar a segunda faixa do disco e trás uma perpectiva filosófica “carpie diem” para o seu interlocutor. Em poucas palavras, a canção diz que temos que viver o agora,
porque o amanhã pode não chegar.

Em seguida temos “Doesn’t Mean Goodbye”, uma canção que vem para descondicionar a felicidade. É uma letra que retrata o lado difícil, insensível e ingrato do amor. Em última análise é uma espécie de reconciliação anunciada, como se o fim do relacionamento já fosse um fato incontroverso.

A seguir temos a balada “Anybody Else”, que é o maior dos exemplos da nossa necessidade de deliberar sobre o amor. Com versos como: “Sometimes a word or a line from a song can send me back to when we had it all / Às vezes, uma palavra ou uma frase de uma música pode me mandar de volta para quando nós tivemos tudo“.

“Oh Jesus” é uma canção que denuncia a necessidade de buscar ajuda para os nossos dilemas, no caso, a necessidade é buscada como a grande maioria das pessoas buscam, por meio de “ajuda” espiritual.

“Broken Hearted” mostra o que queremos ouvir, o que queremos aprender para os próximos relacionamentos, algo soa como: “Wars have never been won before they started. You’ll never love
someone ‘til you’re broken hearted

A próxima faixa fica por conta de “Fire Away”, uma balada romântica, introspectiva que reforça ou retroalimenta a ideia de que deliberar sobre o amor é uma guerra pessoal, silenciosa e arriscada.

Já a faixa “Oh!” trás uma batida melancólica com alguma veia artística de jazz que se torna irresistível.

Perto do fim do disco , temos “Imaginary Tea” uma das candidatas para ocupar o posto de melhor faixa do disco. Imaginary tea é uma espécie de última esperança no amor. Algo como estar perdido e não perder a fé, estar indefeso e não perder a sobriedade.

Já “The Truth” mostra o quanto é importante sermos sinceros no amor, na vida, com os nossos dilemas afetivos. Jon diz “You better get out of town before you hurt someone / É melhor sair da cidade antes de ferir alguém“.

A penúltima canção do disco ficou por conta de “Throw It On the Fire”, que é um retrato poético e fiel da mensagem principal pretendida pelo disco. A sensibilidade do Jon é acompanhada por uma voz angustiada e um piano cativante. Há versos como ” Take this broken love, I’m living. Take this love I can’t stop giving. Throw it on The fire, Throw it on The fire!

Finalmente temos “At Night”, faixa instrumental que encerra o “Holding My Breath”. A ausência de palavras é tomada por uma tristeza melancólica e que parece anunciar uma grande tragédia emocional. “At Night” é uma representação poética do nosso espaço deliberativo. É “na noite” que buscamos soluções ou expressamos o mais profundo desejo de interromper todo e qualquer sofrimento pré estabelecido.

“Holding My Breath” é um ponto obrigatório para quem deseja devagar em suas próprias demandas afetivas, ainda mais quando elas se mostram frágeis na sua concepção ou na sua capacidade de assumir caminhos próprios.

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