Ultraviolence é um monólogo triste em que a solidão é alçada á condição permanente de uma alma vagante mas ainda com resquícios de segurança de si.

Discorrer sobre a solidão é uma atividade emblemática por excelência. Conceitualmente, solidão é a ausência de algo. É um estado da alma que de alguma forma reverbera isolamento e tristeza.São conceitos que desnudam a alma humana, na sua concepção mais universal e que poucos têm a audácia de enfrentar.
A solidão do amor é uma espécie de fogo que figurativamente queima, alucina, eleva a nossa alma para alguma dimensão aparentemente intangível para terceiros.
O ato de estar só nem sempre se traduz em solidão. Essa última é um estado mais profundo, mais amplo, como se uma guerra entre razão e nosso alter ego.
Em verdade, a solidão quase sempre estará associada á concepção mais injusta do amor e ela, na ausência dele, o negará a qualquer custo. E é esse tema que pretendo flertar. Antes de tudo,
necessário alertar que o álbum escolhido para ser tema central desse post destoa do que eu já vinha propondo anteriormente.

O amor, na sua concepção mais injusta tem sido tema central de quase todas as minhas resenhas anteriores. Se tem alguma coisa que aprendi com os discos é que ele (o amor) sempre estará nas nossas vidas seja para qual for sua intenção. Para nos enlouquecer, para nos tirar o ar, para planejarmos dias de domingo sem reclamar da rotina, para termos filhos, para sermos reféns da solidão, para entrar em conflito com o nosso próprio ego, para tudo, não importa.
Acontece que o amor é complexo, tem uma dimensão ampliativa que muito facilmente irá nos confundir, nos fazendo reconsiderar, voltar á um ponto anterior da nossa própria vida. A questão é que nem tudo o que buscamos estará no amor.
O amor é imperfeito demais e sua imperfeição é motivo para que de algum modo possamos nos sentir livres, em toda a concepção da expressão “liberdade afetiva”.
Entendo que naturalmente chegaremos a um estágio da vida que o amor poderá até ser o tema central de nossas ações, mas ele não estará mais no comando de tudo.
Chega um momento que automaticamente conceituamos o amor como o anverso do nosso ego exacerbado e totalmente livre.
Claro que a face imperfeita do amor não é razao para desistir dele. Em momento algum eu busco ou encontrei nos discos uma mensagem de culpa por amar ou deixar de amar.
Acontece que na falta de um amor, muitas vezes exteriorizadas em fracassos afetivos, somos levados á uma dimensão existencial que talvez poucos chegarão.
Não se trata necessariamente de uma expressão de intelectualismo. Talvez a grande verdade é que se trata de uma questão de não sentir medo de expressar medo.
Acho que cheguei ao ponto que eu realmente quero chegar. A solidão é um desdobramento do amor e a recíproca pode ser verdadeira.
A solidão é uma violência antagônica á nossa própria vontade de adaptação ao mundo. usei a palavra “violência” propositalmente para chegar ao título “ultraviolence”, novo disco da Lana Del Rey.

Ultraviolence

Ultraviolence é um monólogo triste em que a solidão é alçada á condição permanente de uma alma vagante mas ainda com resquícios de segurança de si. Indo mais além, “Ultaviolence” é um delírio emocional, uma confissão que soará ininteligível para o ouvinte médio de música. Em “Ultraviolence” Lana Del Rey não exige que o seu expectador esteja perdidamente afundado na solidão, mas há exigências.

Lana de alguma forma exige que o seu ouvinte esteja despido de “parcialismos afetivos”. Lana quer se expressar, da forma dela, intimista, triste e afetivamente há em tudo uma gota de amor pronta para tudo (e aí exige-se que o seu expectador seja capaz de compreendê-la verdadeiramente).

“ultraviolence” é uma abstrativização da violência. Não se trata necessariemente de uma violência física ou intelectual. Há uma violência, uma concepção, um contexto, uma loucura amenizada pelo fato de que Lana tem seguidores e o que ela faz guardará simetria com sentimentos pessoais, afinal, a arte outra coisa não é do que uma busca inconstante por compreensão.

Ultraviolence está longe de fazer um balanço poético de perdas e ganhos, de perdas e aprendizagem. Pelo contrário, há em tudo um limiar de razão, de sentido, de providências, de escuridão e de abismo.
Lana não quer somente analisar sua dor, seu isolamento afetivo. Poéticamente ela quer ir mais além. Não basta cantar sofrimento, não basta compartilhar inconformismo com o mundo, com o amor, com as relações tragicamente acabadas. Existe em “Ultraviolence” uma necessidade de relatar um vazio, um sentimento de “eu não tenho amigos, amores, dinheiro, mas tenho razão e a minha droga”!

Ultraviolence mergulha sem medo no lado mais escuro da profundidade da alma humana. Poeticamente ele é um disco para quem está no fundo do poço, mas sem perder a razão. Como eu disse acima, há um vestígio de segurança, por mais que ela seja mínima e quase inotável.

Se fosse para sugerir as influências do novo disco da Lana eu ousaria em dizer que há um pouco do isolamento de Nick Drake, a poética de Billy Holiday e claro o charme próprio da Lana Del Rey que a faz ser a rainha contemporânea da introspecção.

Lana sabe o que faz, sabe o que dizer, sabe manusear seus próprios sentimentos (ou sua arte) e isso é comovente. Por mais que para grande parte das pessoas “Ultraviolence” passe despercebido, ele é em verdade a maior referência de auto crescimento. Tenho para mim que o discursso proposto pela Lana é um discurso válido e que quem o encampa, possivelmente encontrará uma válvula de escape. Talvez não diretamente e não tão facilmente como queremos. Aliás, nada na vida é fácil, de graça ou engraçado. Tudo sem seu custo. Subverter a solidão em arte-solidão é um caminho longo, complexo e cheio de perdas e ganhos.

O álbum começa com “Cruel World”, uma canção que tende a expressar a solidão no seu viez mais doentio, desesperador. parece que por traz do canto, da arte, há uma voz em delírio, em choro, de alguma forma implorando por algo. Há uma pseudo felicidade pela separação. A mensagem principal da música entra em contradição com o título da música. Em certa altura Lana diz: “I shared my body and my mind with you. That’s all over now. I did what I had to do. I found another anyhow / Compartilhei meu corpo e minha mente com você. Está tudo acabado agora Fiz o que eu tinha que fazer. Encontrei uma outra maneira” Já em outro momento temos “Everybody knows that I’m the best, I’m crazy / Todos sabem que sou a melhor, sou louca“.

“Cruel World” é uma música que exige um olhar teatral sobre ela. É como se Lana estivesse sozinha (“With my little red party dress on“) e festejando a separação e tentando deixar transparecer aquela situação como um momento de felicidade, de euforia. É como esconder o lado sombrio da perda com uma falsa felicidade, algo como “melhor sozinho do que mal acompanhado”.

Já em “Ultraviolence” (a faixa) temos uma espécie de solidão expressada por meio de culto á droga. Lana faz referências ao amor e flerta com a possibilidade mesmo que unilateral de reconciliação. Nessa canção temos um eu ainda incerto, confuso, num grande delírio passional. Em “Ultraviolence vemos algo como “I love you the first time, I love you the last time. Yo soy la princesa, comprende mis white lines“.

“Shades of Cool” retrata uma atmosfera estranha, intensificada pelas referências ás drogas e á um tom de culpa que é expressamente atribuída a outrem e não a si. Vemos algo assim:
“‘Cause you are unfixable. I can’t break through your world. ‘Cause you live in shades of cool. Your heart is unbreakable / Porque você é inconsertável. Não posso entrar em seu mundo porque você vive em tons frios. Seu coração é inquebrável

“Brooklyn Baby” é de longe a minha preferida á posição de melhor faixa do disco. Há uma atmosfera intimista e quase fatal. Há uma voz suplicando por reconhecimento. Há uma repulsa pelo rótulo de imaturidade afetiva, há referências á drogas, há um submundo sombrio que faz da Lana Del Reya melhor cantora da sua geração.

Em seguida, Lana nos mostra “West Coast”. Uma canção minimamente trabalhada para deixar transparecer o amor como consequência da arte, da sua capacidade de maximizar sentimentos, mesmo se eles vierem aconpanhado por um culto direto ás drogas ou algo do gênero.

Em “Sad Girl” temos um balanço subjetivo de um eu que fala diretamente e assertivamente também. Não basta confessar um “eu” solitário. lana confessa um “eu” “mal” e “louco”. Talvez seja uma das faixas menos emblemáticas do disco, mas tem o seu valor poético.

“Pretty When You Cry” é simplesmente avassaladora. Uma canção que rasga sem medo a dor da promessa quebrada em um relacionamento. Há uma análise delirante do que foi dito e do que
não foi cumprido. Mais do que isso. Lana tenta subverter a tristeza da sua solidão em algo bom, belo, esteticamente palatável. Ela tenta reiventar seu isolamento com sua tentativa unilateral de criar esperanças de um retorno. Aqui, mais uma vez Lana faz referências ás drogas e acho que isso a faz soar um pouco excessivamente mainstream.

“Money Power Glory” pode ser resumida em apenas um verso: “My life, it comprises of losses and wins and fails and falls / Minha vida, ela é completa de perdas e vitórias,e de falhas e quedas“.

Próximo do fim do álbum, Lana nos apresenta a “Fucked My Way Up To The Top”.Uma canção sem grande alarde, a não ser uma retórica já vista como “Eu preciso de você, mais e mais e mais”.
“Old Money” tem uma atmosfera solitária e em breve síntese coloca o “eu” á total disposição do amor. Não se trata de uma grande letra, apesar da melodia iressistivelmente dramática.
“The Other Woman” soa algo bem sertanejo dos anos 80,90. É na verdade um discurso de dor de cotovelo ou algo muito próximo a isso. Uma letra que destoa um pouco da mensagem central do álbum e não reflete a postura poética da Lana Del Rey.

Em “Black Beauty”, mais uma vez e de forma genial, Lana Del Rey tenta subverter a solidão em algo belo, algo que pode e deve ser justificado. Aqui, ela tenta alçar a solidão, o sofrimento, a dor, o isolamento á um conceito racional e portanto, válido e ao mesmo tempo, o transforma em arte genuina. A beleza a que ela se refere é figurativamente representada pela cor preta. Claro que a cor está representando a atmosfera integral do disco. Lana quer demonstrar um lado humano pouco explorado, mas que necessita de deliberação, mesmo que ininteligível para grande parte das pessoas.

Daí, talvez reside as várias referências ás drogas. Essas, em verdade, são símbolos da nossa fulga quando não conseguimos entender a realidade ou simplesmente não aceitá-la. E a solidão é uma realidade não aceita e por mais que isso assuste, ela pode não estar muito longe de nós.
“Guns and Roses” é apenas um canção chata para lembrar o ouvinte que a mensagem principal do disco já foi passada e é ora de voltar á faixa um do disco.
Fechando o álbum, Lana nos apresenta “Florida Kilos” uma faixa que excessivamente faz apologia ao uso de drogas. Acho que o álbum poderia soar mais maduro se não tivesse tão preocupado em “entorpecer” o seu ouvinte com tanta droga. Porém, o bom ouvinte de música saberá filtrar excelentes faixas do disco que, apesar dos excessos deve ser visto como um dos grandes lançamentos do ano.

 

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Um comentário sobre “Ultraviolence é um monólogo triste em que a solidão é alçada á condição permanente de uma alma vagante mas ainda com resquícios de segurança de si.

  1. Li a crítica sobre o álbum “Ultraviolence” e o que tenho para discordar? ou concordar? Vc mencionou um ponto de mutação em comum, que percorre a alma de todos que ouvem as canções da Lana. Destaque para “Pretty when you cry” “Ultraviolence” e ” Shadows of cool”. Como fã, achei sua capacidade perfeita de abrir uma conexão entre o artista e a arte. Acredito que a proposta da Lana de que somos parte da arte, é cumprida com maestria. No momento que ouvimos as melodias tristes, nos colocamos no lugar de identificação sentimental e transferimos toda aquela carga psicológica ao nosso cotidiano. Impossível ser indiferente à Lana. Parabéns pela resenha!

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