“My Favourite Faded Fantasy” é triste no início, cheio de orgulho e equilíbrio no seu desenvolvimento e se finaliza deixando no ar que a pior armadilha da vida é sujeitar-se, render-se, trancar-se e não reconhecer ou lutar por uma história diferente.

É interessante como álbuns conseguem estabelecer a intersecção entre realidade e utopia. E, quando eu falo de utopia eu não me refiro á algo distante, intangível e inintelígivel. Por mais  contraditório que possa transparecer, utopia está em verdade tão perto de nós que muitas vezes apenas mudamos o seu conceito, o seu nome, o seu sentido real. O que eu quero dizer é que utopia e realidade são involuntariamente confundidas por nós, pelo nosso ego, pela nossa capacidade de confiar além do confiável, de ser otimista além do razoável. Há um limite pra tudo,  inclusive pela busca do que idealizamos.

Todo idealismo é utópico, mas há diferença entre idealismos e sofrimento prolongado e injustificado. Recentemente eu escrevi algo sobre essa ideia, essa concepção de continuar em algo que nunca deu certo e que o acaso não faria a minima questão que desse. Tem coisas que nem a sorte muda. Ou evoluímos, ou usamos a nossa capacidade de distinção entre nos dar uma última  chance ou partir para outra. Temos que discenir entre a possibilidade e a fantasia. E discernir é fazer as escolhas certas. Por mais que estejamos totalmente perdidos e mergulhados na nossa  maior crise de incertezas, temos que fazer escolhas, em busca do certo, do saudável.

Acho que cheguei no cerne da questão. Fantasia e Possibilidade são dois polos. Não se completam, não  se interessam e guardam consequências especifícas. Uma te leva a acreditar dentro do alcançável. A outra te leva a acreditar de forma imatura, mas sempre justificada como uma utopia recusando alguma verdade. Essa é a questão mais emblemática que o destino nos coloca, sabendo ele que vamos hesitar muito, quase que por toda a vida. É um hesitar humano, pautado na busca poética de que sempre haverá um final feliz, não importa quando. Talvez não tenhamos um final feliz e sua procura é um equívoco. A busca pelo “win and win” não é final feliz, é o começo.

E, o final é algo tão incerto que jamais poderíamos dizer se ele será feliz. O nosso final parece flertar com a fantasia, com a idealização sem limites. Isso não é bom, não é saudável. Talvez essa  seja a mensagem que eu retiro do novo álbum do cantor Damien Rice, intitulado “My Favourite Faded Fantasy”. O novo álbum do irlandês retrata essa tomada de consciência a partir de experiências, do passado, de não persistir em erros e identificar o que é em verdade a nossa grande utopia. Em “My Favourite Faded Fantasy” temos um ser consciente dos seus erros, mas não faz deles um obstáculo para estar plenamente consciente que é necessário tomar iniciativas.

Damien

“My Favourite Faded Fantasy” se torna coerente a partir da análise de sua própria incoerência, da análise quase enigmática de amar sem limites. É um disco maduro e não faz dos erros nenhum motivo para se sentir inseguro. A insegurança aqui, se ela existir é do que estar por vir, jamais pelo que ficou no passado e que está prestes a chegar ao fim. A mensagem é direta, se não deu certo é porque não era para ser, foda-se o resto. O novo trabalho do Damien Rice é curto, contém 8 faixas, justamente porque não há necessidade para grandes divagações. Claro que há um amor perdido como plano de fundo em todas as faixas, mas a mensagem principal não é lamentar e muito menos desejar.

Em “My Favourite Faded Fantasy” amor perdido é visto apenas como devaneios da vida, de um personagem que não quer se torturar e não quer se render á utopias, afinal, o amor não é isso. Amor está em um plano tangível e ele pressupõe acima de tudo não perder a sanidade ou no mínimo o bom senso.

Art
A faixa que abre o disco é a que deu nome á ele. Em tradução livre, “My Favourite Faded Fantasy” pode ser entendida como “Minha fantasia desaparecida favorita”. Nessa canção Damien já mostra a mensagem principal do seu disco. Perder no amor já é uma verdade aceita e não há nenhuma predisposição ao isolamento ou muito menos, não se alimenta falsas expectativas. Essa é a real. Amor, por mais lindo e poético que possa ser, não deve ser alimentado se a sua sobrevivência é impossível de acontecer. Aqui, o amor existe apenas no plano da fantasia, da utopia, mas como o próprio nome da faixa sugere, trata-se de uma fantasia consciente e que está desvanecendo.

A segunda faixa do disco é “It Takes a Lot to Know a Man”. Uma faixa longa que nos faz lembrar da grandeza poética de “Skimo” do disco “O”. “It Takes a Lot to Know a Man” é cheia de instrumentais bem trabalhados que dão um tom sugestivo para uma introspecção sensata, afim de podermos deliberar sobre o que temos feito e aprendido sobre o amor. Nessa canção Damien Rice faz do fator tempo o seu tema central. O tempo aqui é visto como fator de crescimento. De tomada de consciência. O que o cantor diz é que só com o tempo iremos aprender a conhecer, aprender á dar, pedir ajuda, aprender á sermos nós mesmos, aprender a respirar, tocar, sentir, e etc. Ou seja, o tempo e as experiências são fatores que nos definirá e um emaranhado de sentimentos nossos também.

“The Greatest Bastard”, que é forte candidata á melhor faixa do disco, é a próxima faixa. O seu tema principal é narrar o desencontro a partir de um encontro, de uma história, de um contexto. Há um toque de tudo, inclusive de cunho sexual, que o Damien Rice sabe fazer com perfeição. No verso “I helped you open out your wings,yYour legs, and many other things, didn’t I? Damien presenteia-nos com um gosto de irreverência, assim como o seu genial verso “This is love, this is porn” de I Remember (do disco O).. Muito mais do que narrar desencontros, Damien nos brinda com versos fortes como “Some dreams are better when they end / Alguns sonhos são melhores quando eles terminam”.

Já em “I Don’t Want to Change You” Damien demonstra que hesitar entre utopias e realidade é uma constante quando se trata de analisar um amor perdido ou em vias de se acabar. Não é fácil se manter inerte. No fundo, por mais conscientes que sejamos, deixaremos algum sentimento pronto para tudo. No fundo, iremos alimentar uma expectativa, porque nós seres humanos somos movidos pela busca do “win and win” e talvez não sejamos capazes de reconhecer, de uma única vez, idealismos como fracassos.

Essa é a ideia do disco. Não se trata de uma fantasia acabada, no passado. Em verdade, o disco aborda uma fantasia desbotada, se acabando, como se no meio desse processo de extinção, algo pudesse ser mudado ou supreendido. E, quando me refiro á fantasia, estou me referindo á utopias, áquelas situações que idealizamos ou que até chegamos a viver no passado, mas não conseguiu sustentação, por alguma circustância.
Esse é o ponto máximo e o ponto central do novo disco do Damien Rice. “My Favourite Faded Fantasy” não flerta e muito menos confia no destino. Há um ser consciente, já vivido e com uma ponta de sofrimento guardada como tática de sobrevivência.

“Color Me In” que também tem o seu charme e possivelmente é uma fortíssima candidata á melhor faixa do disco, centraliza devaneios de uma alma perdida no amor, esse, não superado totalmente, ainda com ares de escuridão e com necessidades de ser redescoberto, valorizado, aceito.

Já em “The Box”, Damien aborda um ser que já passa a questionar os seus limites, da sua existência, da sua vida enquanto resultado de um status quo ante rodeado de limitações emocionais e da sensação de se estar e ser livre. É como um voz criticando as suas limitações, essas vistas como amarras, algo que gera algum tipo de incapacidade de seguir em frente ou ousar incondicionalmente.

“Trusty and True” é avassaladora. Uma canção que começa triste, resiste, retira forças de si e termina sem grandes conquistas, mas com a certeza que haverá mudanças, para melhor. “Trusty and True” nos chama para fazer diferente aquilo que nos incomoda, que nos diminui, que é em verdade a nossa barreira para ousar, para respirar com a certeza de que o amor não se resumirá em uma grande tragédia poética. “Trusty and True” nos convida para nos superar. Acho que essa é a grande mensagem do disco. O amor, que é retratado no disco como uma fantasia se desbotando aos poucos, se faz substituir por um sentimento de superação e auto valorização. Não se trata mais de se trancar no quarto e chorar pelos nossos devaneios emocionais. “My Favourite Faded Fantasy” é triste no início, cheio de orgulho e equilíbrio no seu desenvolvimento e se finaliza deixando no ar que a pior armadilha da vida é sujeitar-se, render-se, trancar-se e não reconhecer ou lutar por uma história diferente. Aqui, o diferente deve ser visto como algo coerente e lúcido. Damien Rice fez um disco para compartilhar experiências e ao final nos dizer que “alguns sonhos são melhores quando eles terminam”. E, quando alguns de nossos sonhos terminam, não devemos esquecer que perder faz parte do show, de um show maior, mais resistente e cheios de possibilidades.

O álbum se encerra com “Long Long Way”, com toda a intensidade que o Damien consegue expressar, assim de forma tão enlouquente e perceptível. “Long Long Way” não foge da realidade do disco. Há uma mensagem que se intercala e se encerra com perfeição. A última faixa trata da nossa incapacidade ou até resistência em reconhecer o que perdemos e em que momento perdemos. Talvez “perder” não seja a palavra certa porque nunca perdemos o que não foi nosso. Em verdade, essa canção expõe os nossos automatismos de querer retardar algo completamente perdido (por que não algo completamente insolucionável?), Não que o amor seja um sentimento a ser pensado no plano da solução mas, a partir do momento que o superamos, estamos reconhecendo a sua incapacidade de ser eficaz. Essa canção fala do óbvio, dessa ideia de ser dificil (um longo caminho literalmente) para tomar decisões, principalmente quando essas decisões pressupõe o reconhecimento de que um novo caminho precisa ser trilhado, com mais força, perserverança e segurança. Esse é o Damien Rice. Um cara que entende o mundo do amor a partir das suas paixões. Um cara que tem o meu amor incondicional porque é através dele (do Damien) que eu consigo estabelecer o próximo passo, o próximo desejo, a próxima chance, enfim, viver.

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