Vulnicura aborda essa questão de altos e baixos, de “win and lose” mesmo quando se pensa que tudo é “win and win”.

Partindo da premissa de que somos seres inesgotáveis e que não há uma relação linear entre nossas conquistas,e que acima de tudo, seremos postos á prova até o último instante de nossas vidas, eu me entreguei por completo para analisar o “Vulnicura“, novo álbum da cantora Björk.
Devo ressaltar que não foi um mergulho minimamente intencionado. Havia uma linha de interferência pessoal que de algum modo me obrigou a analisar o discurso desse álbum.

É aquele chamado denominador em comum, um elo que liga arte ao ouvinte. E aqui devo ser o mais sincero possível. “Vulnicura” é tão avassalador e potente que eu já não posso e não devo analisá-lo do ponto de vista artístico. “Vulnicura” não é só arte. É um discurso vivo, em chamas e totalmente incondicionado.

Não há espaços para o medo de expressão. O sentimento é livre, aliás, o modo de se expressar é tão fulminante, que em algum momento eu sinto que a Björk está apenas falando em voz alta. E é aí que reside o ponto crucial de Vulnicura. Há uma voz efervescente, madura e traída. Não só uma traição na sua concepção literal. Talvez uma traição da vida, uma traição do destino, uma situação de rompimento de um status quo. Aí devemos ser justos.
Muito embora Björk discorra sobre uma traição, não totalmente literal, ela abraça por completo tudo o que lhe afaga e lhe foi capaz de lhe tirar todo o controle de si, descontrole em forma de lágrimas.

Vulnicura

Vulnicura” discorre sobre a profundidade de se estar mergulhado em uma tristeza não tão bem calculada ou presumível. Uma tristeza obra da vida? Talvez. Uma tristeza obra das próprias ações e divagações? Possivelmente sim. Há uma tristeza crescente e ao mesmo tempo sob controle.
Vulnicura” é como uma extensa crônica de como é perder quando se pensava já ter tudo.

Björk é do time das seletivas cantoras que fazem músicas para discorrer sobre sentimentos, e talvez, sentimentos que estão ou estarão em uma seara ininteligível para grande parcela das pessoas.
Vulnicura” não é só triste. Ele tem a tristeza como objeto de análise e de consequência. Björk analisa a sua tristeza, na sua raiz, sem desconsiderar o seu desenvolvimento e seu ápice do desespero.
Quando ouvi o novo disco da Björk, de cara eu tive a certeza que estava diante de um primor, de um disco que havia muito a me oferecer. Há experiências gritando em cada verso. Há tudo o que você quiser, inclusive proteção.
Vulnicura” indiscutivelmente é um disco intimista, mas deixa para o seu ouvinte o que é a vida de verdade. O novo álbum da Björk aborda essa questão de altos e baixos, de “win and lose” mesmo quando se pensa que tudo é “win and win”. Há toda uma sensação de perder o que já se pensava ser nosso, de desfazer um  sonho, uma vida em comum.
Entendo que deve ser um barra tornar público alto tão íntimo e tão cheio de vulnerabilidade. “Vulnicura” é extenso, pela sua capacidade de refletir uma realidade emocional presente e autointitulada como a maior das crueldades da vida.

Björk foi muito feliz em lançar um álbum/desabafo sobre uma determinada fase particular de sua vida. Acho que todo disco, aliás, todo discurso contido em um álbum é válido quando ele consegue te alcançar, te atingir em um nível que você se sentirá de alguma forma parte daquela realidade.

Vulnicura contém nove faixas, cada uma com a sua capacidade de interação. Os destaques maiores são para “Black Lake“, “Family” e “Notget“.
Seria o pior dos escritores se eu não terminasse esse texto sem citar “Notget“. Em algum momento dessa música Björk canta/desabafa:

You have nothing to give. Your heart is hollow. I’m drowned in sorrows. No hope in sight of ever recover. Eternal pain and horrors

E onde há um desabafo há um “eu” potencialmente vencido, mas que ainda acredita (ou deve acreditar) na sua capacidade de superação.
Essa talvez seja a grande mensagem. A “Vulnicura” (Ferida aberta) é em verdade uma ferida, que apesar de doer tanto, é uma ferida que será fechada, porque toda ferida precisa de cura, precisa que nós lutamos em busca dela. Se não fosse assim, nada teria importância, tudo seria vazio, um vazio em desespero.

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