“Every Kingdom” pode não ser a solução, mas a partir dele há todo uma ideologia em movimento, uma inspiração para acordar e perceber que com o tempo pessoas sairão das nossas vidas da mesma forma que entraram.

Essa talvez não seja uma boa maneira de começar um texto, mas ás vezes usar-se de clichês é a melhor forma de conseguir ser entendido. E não há clichê maior do que induzir o leitor a sentir o que se sente através de perguntas, perguntas-modelos. Aquelas que omitem a priori uma intenção, uma moral da história.
Então vamos lá. Sabe quando você leva um soco na boca do estômago bem forte e a vida te proíbe de esboçar qualquer tipo de reação? Sabe quando você está hesitando entre perder e se dar uma última chance?

A vida tem dessas coisas de nos dar um ultimato, e acho que isso é universal. Estamos respirando, estamos ocupando espaço nesse mundo e  isso é suficiente para que a vida nos cobre, nos bata, e ás vezes bem forte.
Acho que no meio dessa multiplicidade de sensações e sentimentos, a única coisa que eu consigo vislumbrar como algo ainda realmente válido é entender a minha  necessidade de me dedicar á avaliações pessoais.
Não há melhor avaliação pessoal, em todo o seu alcance, do que ser acompanhado de um bom disco de música folk.

O estilo musical, o folk, é naturalmente calmo e guiado por uma sinceridade singular. Claro que eu tenho e devo delimitar todos esses meus devaneios.
De tantos nomes e discos de música folk, eu escolhi um disco em especial por ele guardar total simetria com os meus sentimentos, no presente.
E antes de chegar no álbum em questão, devo trazer aqui uma fábula que li em algum lugar na internet, cuja autoria aparentemente se atribui ao escritor grego  Esopo.
Tal fábula diz que “uma cobra foi perguntar a Zeus por que ela era pisoteada por inúmeras pessoas. Zeus, então, lhe disse: “Mas se você tivesse picado o
primeiro homem que lhe deu um pisão, o segundo não teria se atrevido a fazer o mesmo“.
Na mesma fonte de onde eu li tal fábula, eu vi a seguinte explicação:
A fábula mostra que aqueles que enfrentam os primeiros agressores tornam-se temíveis para os demais“.
Daí, surgiu um contexto a ser explorado. Um contexto emocional que precisava de algum disco para auto-reflexão. Eu precisava de um disco calmo e seguro de si. Eu precisava de perspectivas e um pouco mais de atenção. Cheguei no disco “Every Kingdom” (2011), do cantor Ben Howard.
Every Kingdom” é um disco que aborda um “eu” em busca de reviravoltas, de superação, de encarar a vida como momentos provisórios, de ser plenamente consciente da efemeridade da vida.
Aí reside uma grande sacada. Talvez passaremos uma vida inteira sem saber como nos relacionar com os nossos próprios erros. E quando eu falo em erros eu incluo os acidentes de percalços, como aquele relacionamento que nunca existiu, mas que fomos o seu grande e único idealizador. Incluo todos os foras que recebemos ao longo da vida, enfim, incluo um sem limites de sentimentos que se destacam pelo seu poder de testar a nossa própria loucura.
Every Kingdom” pode não ser a solução, mas a partir dele há todo uma ideologia em movimento, uma inspiração para acordar e perceber que com tempo
pessoas sairão das nossas vidas da mesma forma que entraram. Ou pelo acaso, ou pela nossa capacidade incondicional de nos amar.

Ben Howard demonstra ao longo de “Every Kingdom” que cedo ou tarde iremos perceber que ao longo da vida sempre estivemos em busca de nós mesmos.
De conhecer as vontades e desejos de um “eu” e acima de tudo entender que nem todas essas vontades e desejos serão reais ou terão algum tipo de relevância a longo prazo.
E, quando eu digo que não serão reais, eu quero dizer que alguns desses desejos e vontades são supérfluos. E aqui eu devo incluir algumas pessoas.
Pessoas são supérfluas quando elas não têm o dom de compartilhar desejos e vontades. Aqui eu prefiro me referir á um nível que ainda está fora do conceito de altruísmo.

Album Artwork

Pois bem, o disco do Ben Howard começa com a triste “Old Pine“. Uma faixa extensa e que trata de uma tensão emocional de forma madura e sincera, deixando a serenidade ser a protagonista do início do disco. “Old Pine” é uma faixa que usa de linguagem figurativa para dizer que ali há um “eu” que está aprendendo com a vida e toda a sua aprendizagem o coloca de certa forma em uma posição privilegiada. Já não se trata de um “eu” tão vulnerável, mas outrora, de um ser que já apanhou muito no passado e que acumula certa experiência de vida. Nessa faixa temos algo como:
We slept like dogs down by the fire side. Awoke to the fog where all around us the boom of summer time / Dormimos como cães ao lado do fogo. Eu caminhei para a queda onde tudo ao redor é a explosão do verão

A próxima faixa é “Diamonds“, uma balada para reafirmar a posição de relevância de um “eu” otimista e confiante em si, mesmo que possa transparecer inconstante. Aliás, ser inconstante é uma das mensagens do disco. Nessa faixa podemos ver:
And all my demons, you said, come and go with the days / E todos meus demônios, como você disse, vão e vem com os dias” e ainda:
Oh there ain’t no diamonds in the boredom. Oh there ain’t no darkness that I fear / Oh, não existem diamantes no tédio. Oh, não existe escuridão que eu tema“.

Conciso e direto, “Every Kingdom” segue com a faixa “The Wolves“, uma faixa que aborda com excelência as oscilações emocionais de um “eu” no limite de tudo. Há versos poderosos como “Falling from high places, falling through lost spaces. I lost my time here, i lost my patience with it all. I lost my mind here, I lost my patience with the lord. And we lost faith, oh in the arms of love / Caindo de lugares altos, caindo através do espaço perdido. Perdi meu tempo aqui, perdi minha paciência com tudo. Eu perdi minha mente aqui, eu perdi minha paciência com o senhor. E nós perdemos a fé, oh nos braços do amor“.

Já em “Everything” temos uma das grandes e valiosas faixas do álbum. Nela há um “eu” que observa em volta de si, sem perder de vista a sua própria essência, os seus próprios abalos emocionais. Uma faixa que não se deixa vencer e prioriza um discurso de continuar seguindo em frente. É dessa faixa que surgiu o título do álbum, como podemos ver no verso: ” Every king knows it to be true. That every kingdom must one day come to an end. Todo rei sabe que isso é verdade. Que todo reino um dia deve chegar ao fim

Only Love” duela entre permanecer na luta pelo amor ou reconhecer o fim e partir para outra. A vida é marcada por tentativas e com o amor não é diferente.
Nessa canção podemos identificar o seguinte verso: “Give me shelter or show me heart / Dê-me refúgio ou mostre-me amor“.

Em “The Fear” Ben retrata toda a sua genialidade em uma letra que discorre sobre a nossa capacidade de ousar limitada pelo medo e pelas incertezas. É uma letra que de alguma forma tenta descondicionar todo esse ambiente escuro e sombrio.

Keep Your Head Up” é de longe a melhor canção do disco. Talvez o próprio nome dela já denuncia a sua intenção. Nessa faixa Ben rompe limites e se supera de uma forma visceral. Se antes havia um discurso hesitante, em “Keep Your Head UpBen Howard é direto, consciente e mostra com clareza a essência do ato de viver uma vida marcada por devaneios. Ben Howard rompe com essa ideia de viver mergulhado em devaneios. Ele estabelece “um a partir de agora”. E
isso é inteligente, é válido, é o discurso que nós devemos entender e usá-lo como tática de sobrevivência. “Keep Your Head Up” tem versos fortes como:
And I gave my eyes to the boredom, still the seabed wouldn’t let me in. And I tried my best to embrace the darkness in which I swim / E eu me entreguei ao tédio, mas mesmo assim não atingi o fundo do poço. E eu tentei com todas as forças abraçar a escuridão em que eu mergulhava / All I was searchin’ for was me / Tudo que eu estava procurando era eu mesmo

Em seguida, Ben nos apresenta a faixa “Black Flies“. Uma faixa que canta e descreve a solidão com total fidelidade. Não é uma solidão doentia, pelo contrário. É uma solidão de um “eu” experiente e inteligente e que de alguma forma não se deixa ser guiado por ela. Há um discurso maior do que a própria solidão. Talvez um discurso de superação, um discurso de um “eu” que tem plena consciência de que é analista da sua própria dor.

Perto do fim do disco Ben Howard nos presenteia com “Gracious“. Uma faixa serena e já demonstrando um “eu” plenamente consciente sobre o amor, sobre a sua ausência, sobre o que é viver para sempre ou quase sempre apanhando da vida.

O disco se encerra com “Promisse“. Não há promessas. Há um “eu” menos caótico e mais centrado. Há um “eu” virando mais uma página da vida, mesmo não sabendo o que virá pela frente ou o que se quer que venha. “Promisse” é o discurso final de alguém que apanhou, não teve reação, reconheceu a sua posição de fragilidade e não guardará nenhum tipo de fraqueza, nenhum sentimento de derrota. Ben, de forma genial termina a faixa dizendo: “Who am I, darling to you? Who am I? I come alone here. I come alone here“.

Every Kingdom” é um disco completo, daqueles itens indispensáveis para nos acompanhar em noites vazias, para assim entendermos definitivamente a moral da história da cobra e Zeus. Precisamos ser fortes e esboçar algum tipo de reação quando recebermos um soco bem forte da vida. Quem sabe assim não conseguimos traçar um caminho válido e blindado de todo tipo de sujeição da vida?

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