Tomada: O elemento fundamental desse álbum é que há um status de maturidade que se sobrepõe ao discurso do amor utópico.

O amor é um sentimento interessante porque ele é múltiplo por natureza. Quero dizer que ele pode ser sentido, interpretado e até cantado de formas diversas e mesmo assim não consegue perder a sua beleza.
Muitas vezes ele é doentio, frágil, dramático, recíproco, calculista, mas em todos os casos não deixa de ser um sentimento inspirador.
A gente precisa dele todos os dias, não importa em qual nível de intensidade. E, mesmo que ele se manifeste apenas em um plano utópico, ainda assim será um sentimento válido. Isso porque o amor é persistência, repetição, reafirmação.
Quem ama constrói a sua própria história emocional e, ao longo do tempo passamos a entendê-la de uma forma mais técnica, mais racional. O que eu quero dizer é que o amor afeta o nosso senso de maturidade, essa que é uma virtude que se desenvolve ao longo do tempo e quase sempre em decorrência das nossas imersões em erros e em um estado total de inexperiências.

A bem da verdade, o histórico das relações humanas é capaz de nos apontar que estamos bem com nós quando passamos a nos conhecer melhor e principalmente, quando passamos a ter a convicção do que não queremos pra vida ou simplesmente o que (quem) definitivamente não é importante pra nós.
O processo de alcançar a maturidade não é um processo linear, mas é uma etapa da vida a partir da qual passamos a entender a grandeza de conceitos como serenidade, cumplicidade, romantismo, racionalidade, perseverança, crescimento, auto-conhecimento e liberdade.
Até aqui eu quero dizer que essa “tomada de consciência” decorre dos fracassos emocionais que acumulamos ao longo da vida, na vã tentativa de consolidar uma história de amor que seja genial, mesmo que ao nosso modo.

Filipe Catto Tomada

Toda a abordagem acima surge através da minha leitura pessoal para o novo disco do cantor Filipe Catto, intitulado “Tomada”. Dono de uma das principais  vozes da nova geração de cantores nacionais, Filipe fez um álbum que aborda um status de crescimento emocional e o faz sem desconsiderar e sem reduzir  a importância ou a busca inconstante do amor.
Em “Tomada” encontramos um “eu” sob controle de suas próprias projeções. E o elemento fundamental desse álbum é que há um status de maturidade que se sobrepõe ao discurso do amor utópico, mas jamais do amor verdadeiramente considerado. Em verdade, em “Tomada” há um discurso poético, e a sua parte genial é que ele não se perde e não atira para todos os lados. Há um “eu” consciente e com um sentimento no peito pronto para tudo, inclusive para acumular mais decepções. Porém, há um “eu” mais experiente, capaz de fazer análises de um status quo ante como forma de proteção.

“Tomada” é um disco que transborda maturidade sem deixar o amor em segundo plano. O amor é importante, mas ser idiota em busca dele não faz parte da vida. O que eu vejo no novo disco do Filipe Catto é um “eu” focado, e focar na busca do amor significa de algum modo sair da condição de vítima para ser protagonista do mundo.
Essa é, na minha opinião, a grande mensagem do disco. Acordar pra vida, sermos plenamente conscientes quando o assunto é o amor e a perspectiva real de alcançá-lo. Se não deu, se não era pra ser, vamos seguir em frente. E, seguir em frente significa se amar sempre e em primeiro lugar e acreditar firmemente que utopia não é um conceito absoluto quando o assunto é o amor.
“Tomada” flerta com possibilidades reais, ainda que em cada canto exista uma beleza poética idolatrando o amor utópico. E essa postura do disco do Filipe é louvável porque mesmo que o amor seja utópico em nossas vidas, em verdade o álbum nos ensina, ainda que implicitamente, que o correto é falarmos que o amor está utópico, no presente.
“Tomada” é pra mim um disco sobre a liberdade. Liberdade de sentir, de errar e nunca perder de vista que o amor é uma parte importante da nossa vida, intrinsecamente ligado ao nosso auto conhecimento e crescimento.

O disco abre com a canção “Dias e Noites“. Uma canção de batida leve e sutil, mas com uma letra que já mostra o status de maturidade do álbum. Há um “eu” que de alguma forma transforma uma linda história de fracasso em algo poeticamente válido, isto é, em um grande aprendizado para a vida. A grande sacada aqui é não se apegar ao passado, ainda que nele reside os piores ou melhores momentos de nossas vidas. Há um sentimento de nostalgia, mas nada capaz de criar uma instabilidade emocional. Com versos como “Por onde esbarro o perigo onde madrugada já não passa. De uma armadilha onde eu quis me perder, me deixar. Por outros sinais já nos gastamos, jorrando fontes, apostando alto demais. Por onde me devora o infinito, hoje essa cidade nos arrasta por mais um dia, por aí. Por querer te levar por outros finais“.
Nessa canção, o amor perdido é tratado como uma armadilha onde o “eu” quis se perder, mas já não o quer mais porque ele já carrega um senso de maturidade capaz de despertar em si a capacidade de seguir em frente.

Em seguida Filipe Catto nos apresenta “Partiu“. Uma canção com instrumentais típicos de uma balada de banda de rock, porém é o Filipe Catto mostrando que ele pode tudo musicalmente. “Partiu” retrata a liberdade de sentir e experimentar. E, aqui eu preciso ousar nas minhas afirmações. Só conseguiremos atingir o estado pleno da maturidade quando passarmos a sentir o conceito amplo da liberdade. Não basta termos uma noção utópica dela. Precisamos senti-la e sentir nos dias atuais tem sido deixado para segundo plano. A mensagem na música é ser livre para amar, para ousar, para errar ou o que quer que seja. Nessa canção Filipe Catto aborda o ” carpie diem“, o agora tem que ser de fato agora e livre. Há versos como “Com você sou livre pra ser o que sentir. Sem medo nas paradas, sem culpas pra ingerir / Partiu, formou. Bora(casa) comigo?  Partiu, formou Tudo é um tiro (em todos os sentidos)“.

Depois de Amanhã” é uma canção que flerta com o status de maturidade do próprio “eu”. É uma faixa que faz autoanálises de um passado/presente com base nas suas próprias intuições de um futuro não tão distante. Nessa música encontramos versos como: “Que lembranças vão sobrar de nós se não há como adiar? Não há como te expirar de mim nem respirar o bastante pra estender esse fim?

A próxima faixa é “Auriflama“. Uma canção que retrata o fim do amor. Não é uma canção com discurso doentio, pelo contrário, o fim do amor é tratado figurativamente como “morte” no sentido da sua irreversibilidade.

Canção e Silêncio“, forte candidata para ser a melhor canção do disco, é simplesmente avassaladora. Com ar de romance, com ar de hesitação, com ar de retroceder no status de maturidade, com ar de rebeldia, com ar de sofrimento, com ar de solidão. “Canção e Silêncio” é uma canção que eleva o amor, ainda que tudo tenha sido um acúmulo de sofrimentos. Aí reside o lado fantástico do disco do Filipe. Se estamos dispostos a amar, estamos dispostos a ser imperfeitos, e imperfeição é um sentimento plenamente compreensível. Nessa canção vemos versos como: “Procurei nos lábios, procurei nos olhos a tua presença e só achei saudade. Eu não queria ser mais um entre um milhão de loucos. Pouco a pouco vou perdendo os parafusos e correndo contra a multidão. Não vou lhe implorar piedade, não vou te escrever poemas. Não, eu já tranquei as portas e você nem se importa. Quer saber? Eu já chorei até demais por você“.

Em seguida Filipe nos apresenta “Do Fundo do Coração“, uma balada romântica que ficou perfeita em sua voz. Aqui podemos ver versos como: “No lago do peito, secreta solidão. Eu lembro lugares, pessoas que frequentei. Cenas que vi, filmes que já filmei.  Apareça qualquer hora, agora e mora no meu coração“.

Amor Mais Que Discreto” é outra balada romântica que assume a responsabilidade de retratar o amor improvável e inviável, mas intensamente idealizado. Na literalidade da música, o amor retratado é uma espécie de interdito. Aqui, podemos escutar algo como: “Eu sou um velho mas somos dois meninos. Nossos destinos são mutuamente interessantes“.

Um Milhão de Novas Palavras” apresenta instrumentais pesados mostrando toda a versatilidade do Filipe Catto. É uma canção que quer manifestar algum tipo de protesto, pois a música fala ” A gente anda tão mal, eu, você, geral. Tanta raiva, quanto mais sinto pressa na contramão da fé, grito sem sessar“. Há espaço para criticar a obsessão do Estado em ditar o comportamento das pessoas, como podemos ver em: “Os homens no poder vão classificar o teu corpo, teu lugar, tua cara. Lições de amor igual, quem precisará?

Próximo ao fim do disco temos “Iris e o Barco“, que aborda um misto de sentimentos, como ilusões, dúvidas, mágoas, inseguranças e incertezas. O destaque fica para os seguintes versos: “No corpo, ilusão. Tenho dúvida então. Nunca vou despertar nem nunca vou cansar, nem nunca, iludir“.

Pra Você Me Ouvir“, penúltima faixa do disco, possui versos como “Vou cantar pra você me ouvir, pra você surgir, pra você ficar agora. Vou cantar pra você me ver, me reconhecer, me deixar entrar na hora“.

A última canção do disco é “Adorador“, uma canção com uma letra interessante, mas que poderia soar melhor se tivesse tido os arranjos certos. “Adorador” é uma faixa que nos remete ao Filipe Catto do primeiro álbum, como em “Juro Por Deus“, “Teu Quarto” e “Ressaca“. Porém, os arranjos de “Adorador” me soou estranho e desinteressante. No que diz ao seu conteúdo, “Adorador” é uma típica canção para retratar a dor de um amor perdido ou não correspondido.
Aqui, temos o seguinte: “Feito uma droga lenta, uma ressaca imensa, tua boca me arrebenta, amor. Me leva por um fio, me despe no vazio depois me deixa e deixa a dor“.

Tomada” é um disco patrocinado pela Natura Musical e está disponível nas principais plataformas de Streaming do país.

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