“I Am” é muito mais do que auto confiança. É controle emocional, é um cansaço de sustentar o insustentável, é uma visão clara de que nem sempre o amor nos fará bem.

Ás vezes tudo o que precisamos é nos olhar no espelho e enxergar ali uma alma verdadeiramente segura de suas convicções. Quando assim fazemos não estamos em uma crise existencial em sua concepção literal. Isso porque na grande maioria das vezes já nos conhecemos suficientemente bem e o fator de risco já não está em nós, mas está com nós.
Pode ser uma diferença sutil, porém rodeada de possibilidades. Quero dizer que chegamos a um ponto da vida em que já não sabemos mais como nos relacionar com os nossos sentimentos, esses sim, carregados de mistérios e incertezas. O que eu tento demonstrar é que ás vezes já conseguimos sustentar um status de auto evidência, em que os problemas, se é que há problemas, não está em nós, mas sim na nossa capacidade de sentir.
E de todos os sentimentos, o mais emblemático é o amor, sentimento esse que vem sendo objeto de deliberação em todas as minhas resenhas nesse blog.

O amor nos confunde, nos faz ser quem nós não somos, nos faz acreditar em uma linda história de amor quando não há protagonistas dispostos a vivê-la. Eu poderia ir mais além, mas o amor guarda em si um sem limites de situações que beira ao desespero. A bem da verdade, ninguém nunca nos ensinou um limite para amar. Até que ponto poderíamos amar alguém sem perder de vista quem somos? O amor não é matemático, é filosófico. E, reside em nós a nossa capacidade de abandoná-lo quando ele já não for um sentimento sedutor.

Essa é talvez a grande dificuldade do ser humano: saber a hora certa para renunciar o amor. Como e quando renunciar alguém que nos faz tão bem? A grande verdade é que a vida não vem com manual de instrução. Portanto, todo ato de renunciar é uma decisão individual e excepcional.
Mas, há alternativas interessantes para que possamos nos relacionar melhor com o amor, sem que precisamos renunciá-lo de uma só vez. Quando passamos a ter a certeza de quem somos e quais são os nossos limites emocionais passamos em verdade á um status de superioridade. Aqui, por mais que tudo o que o amor deixe transparecer seja inseguranças, já estamos conectados com o nosso verdadeiro “eu”.
E a partir daí, se o amor não acontecer, pelo menos ele não será capaz de nos auto destruir. Esse é o ponto chave de um verdadeiro status de maturidade.
Quem se conhece, e se conhece bem, é capaz de vencer as forças das adversidades. E, mesmo que a renúncia ao amor não aconteça de imediato, a sua existência, ainda que rodeada por fragilidade, não será capaz de destruir a segurança do verdadeiro “eu”, da alma que se busca no reflexo do espelho.

Leona Lewis I Am

Essa é a grande força sustentada no álbum “I Am” da cantora Leona Lewis. No seu novo álbum Leona faz um balança poético forte. Sem colocar nada em colisão, “I Am” trata o amor com imparcialidade, sem que isso signifique ser excessivamente racional. Há de forma explícita um discurso que parte da segurança do próprio “eu”, sem condicionar o amor.
O interessante é que “I Am” é um álbum que apesar de transparecer um discurso de rompimento, não mostra indícios de uma grande tragédia pessoal. Isso porque há um “eu” que apesar de tudo confia em si mesmo. E é muito mais do que auto confiança. É controle emocional, é um cansaço de sustentar o insustentável, é uma visão clara de que nem sempre o amor nos fará bem e quando isso acontecer, a única solução é não nos perder.
Esse é o ponto onde eu quero chegar. Em “I Am” perder no amor não significa se perder e há um discurso forte de se manter firme a qualquer custo.
“I Am” oferece um discurso que nasce no essencialismo do próprio ser e discorre bravamente sobre um amor perturbador. É um amor que não deu certo e ainda assim produz visões surreais de um futuro que, redundância á parte nunca acontecerá. A importância de “I Am” começa já com o seu título, que apesar de curto é dotado de uma carga explosiva de filosofias do próprio ego. “Eu Sou” ou “Eu Estou” (pra mim soa melhor como “Eu Sou”) não discute sobre o amor porque em determinada fase da vida já somos coerentes para reconhecer que o amor não está no plano da discussão. Se há algum plano, ele está no plano da aceitação. Ou se aceita o amor ou, gostando ou não iremos renunciá-lo, ainda que ele pareça ser maior que nós mesmos. E aqui mais uma vez o discurso do “I Am” surge para nos salvar de afirmações estúpidas. O amor nunca pode ser maior que nós mesmos. Nós sim somos maior que ele. Nós somos mais importantes, e a nossa importância é capaz de vencer todo tipo de desespero.

O álbum inicia com “Thunder“, canção responsável por fazer uma abordagem visceral de auto crescimento. “Thunder” nos mostra a importância de sermos fortes ainda que tudo dentro de nós esteja rodeado por dores, por mágoas, por rompimentos, por qualquer sentimento que implique uma relação win and lose. Aqui, encontramos versos como “With an empty heart, I am free again. With some things to start, some have to end / Com um coração vazio, estou livre de novo. Com algumas coisas para começar, algumas têm que acabar

Já em “Fire Under My Feet” encontramos um “eu” livre e consciente de que esse sentimento de liberdade é o primeiro passo para se dar a volta por cima.  Aqui, Leona nos apresenta um discurso importante que, ao mesmo tempo em que ressalta a importância de viver, nos ensina a importância de retiramos lições de nossos erros, e eles, nunca poderão ser motivos para desistir de nós mesmos. O destaque nessa canção fica com os versos: “Every tear shed will  be worth it. Step by step, ain’t looking back. Have no regrets / Toda lágrima que derramei valerá a pena. Passo a passo, não olharei para trás. Não me arrependo de nada

You Knew Me When” aborda crescimento decorrente de desilusões. Mais do que isso, “You Knew Me When” reflete a visão de um “eu” que a partir de um fracasso emocional já consegue entender o que é se valorizar, não perder tempo com quem não merece, ou simplesmente com alguém que embora amamos profundamente, nunca será capaz de nos evidenciar, de nos oferecer amor na mesma intensidade que somos capazes de dar.

Em seguida temos “I Am“, canção que leva o título do álbum. É aqui que reside toda o discurso do álbum. A mensagem do álbum é discorrer sobre o amor, mas tendo em mente a importância de manter um discurso motivacional, de aceitação, discurso de seguir em frente, de respirar, de viver com o olhar para o futuro e fazendo do presente um ato de auto valorização. Aqui vemos o seguinte: “I am with or without you. I am breathing without you. I am somebody without  you. I am, I am. I am free without you. I am stronger without you. Thought I would never rise again. But I am, I am / Eu sou com ou sem você. Eu estou respirando sem você. Eu sou alguém sem você. Eu sou, eu sou. Eu estou livre sem você. Eu sou mais forte sem você. Pensei que nunca iria me levantar novamente mas eu sou, eu sou

Já em “Ladders” temos um discurso transição. Tudo está acontecendo, no presente. O sentimento de perda está ali, vivo e rodeado de incertezas. Mas, apesar de tudo, há o início de construção de um novo caminho. Há convicções, há um desejo interno de querer dar a volta por cima. Há uma voz que não nega o medo, mas também não abre mão de sua liberdade.

Em “The Essence Of Me“, um dos pontos altos do disco, encontramos um discurso de um “eu” que não encontra espaços para limitações. Muito mais do que uma canção para abordar a essência do próprio ser, “The Essence Of Me” em verdade surge para fazer de “I Am” um grande álbum, que veio sabendo o queria dizer e o que queria deixar para trás. Aqui, mais uma vez há um discurso de libertação, há um nível de crescimento que não desconsidera os próprios fracassos, mas também não faz deles nenhum vício sentimental auto suicida.

I Got You“, uma das baladas dançantes do disco, surge para nos lembrar que analisar o amor não é um ato cem por cento racional e muito menos cem por cento emocional. Por isso que em “I got you”, apesar do discurso de rompimento, de seguir em frente, no fundo, o nosso coração pode guardar um resquício de amor. E quando deixamos transparecer esse resquício, essa vontade de fazer as mesmas apostas, muitas vezes seremos julgados, com ou sem razão, tudo vai depender da nossa capacidade de enfrentar recaídas como mais uma oportunidade da vida para seguir em frente.

Power” que é pra mim a melhor faixa do disco, aborda um discurso de poder, literalmente. É o nosso poder de libertação, de respirar e encontrar novos motivos, novas razões, novos horizontes na vida. De deixar de lado de uma só vez e entender de uma vez por todas a nossa força capaz de nos transformar radicalmente para melhor.

Another Love Song” é a penúltima faixa do disco, com batidas alegres e com um discurso que se aproxima muito com a mensagem de “I Got You”. É um discurso em que o hesitar seguir em frente está em jogo. O amor ás vezes tende a falar mais alto, inclusive mais alto do que as nossas próprias deliberações.

Por fim, temos “Thank You“, uma das baladas românticas mais lindas do disco. É um discurso de agradecimento. A mensagem dessa canção é interessante na medida em que, mesmo que o amor se torne um fracasso em nossas vidas, ele em verdade nos ensina a viver, a nos enxergar, a descobrir e testar os nossos limites. É na busca dele que encontramos ou atingimos a nossa essência. Por amor é que nos olhamos no espelho e procuramos ali alguém forte, livre e certo de que as nossas decisões nos farão bem.

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