Resenha de Show: Damien Rice

Em tempos em que vivenciamos o peso emocional de estar em crise, identificar-se com algum discurso é uma forma de se expressar, e lá no fundo também de sair de cena.  Quando eu faço referência á crise emocional eu me refiro diretamente a espaços abertos, não totalmente preenchidos, espaços que não sabemos (ainda) se serão preenchidos ou se deverão ser.  
Das afirmações acima, uma delas não foi dita, propositalmente. A grande verdade é que estar em crise é estar mergulhado em um senso de maturidade e o nosso maior dilema é como encarar esse senso como uma saída e não como uma prisão.
Na vida a gente vai errar, muito. Digo emocionalmente. E errar não é só aprendizado. Errar soará como uma grande tentativa de escrever a nossa própria história, ainda que incoerente e marcada por mais baixos do que altos.
Foto originalmente postada no grupo do cantor no Whatsapp. 

Acumular decepções na vida significará também procurar por um discurso de salvação. E é aí que entra em cena  o Show de promoção do álbum “My Favourite Faded Fantasy” do irlandês Damien Rice. 
Durante a sua passagem pelo Brasil eu estive presente no concerto do cantor, que ocorreu no dia 22 de outubro de 2015, no Cine Jóia, em São Paulo. Durante o espetáculo, em pelo menos três momentos eu encontrei razões para não desistir e aceitar todos os meus erros como processos necessários para o meu status de maturidade.
Durante todo o seu show o cantor Damien Rice deixou claro a sua abordagem emocional. Damien deixou transparecer um grito explosivo onde se via claramente uma voz em crise de representatividade. Havia mais do que isso. No seu espetáculo, Damien Rice transformou toda sua crise em protesto. Não posso negar que havia um balanço poético sobre o amor muito forte. Mas, também havia muita raiva, como um modo coerente de expressar todo um discurso racional engasgado no peito. Havia uma racionalidade tão forte que o discurso de “não opressão” era apenas uma ponta do iceberg. 
No palco, Damien não era apenas um cantor ou um multi-instrumentista. Havia ali uma filosofia de vida a ser doada. Havia ali no palco um homem decepcionado com o amor e decepções eram tratadas no grito, literalmente. Damien soube expressar durante todo o seu show a essência da sua arte, aliás, seria injusto reduzir as suas canções em um conceito tão frio como “arte”. A essência do Damien Rice está na delicadeza dos sentimentos, na fragilidade de compartilhar a sua própria dor, na beleza do discurso de querer uma volta por cima, ainda que exista uma instabilidade fervorosa no peito.
Damien Rice transcorreu ao longo dos seus três álbuns e entregou para o seu público muito amor, ainda que um amor partido, ainda que um amor complexo demais, frágil demais ou ainda indiferente demais para pelo menos uma pessoa.
O concerto contou com 16 canções, cada uma transbordando um desejo, uma necessidade de ação, uma necessidade de refletir sobre o nosso pessimismo diante do amor. 
O show começa com Delicate, canção que reflete toda a incoerência e a instabilidade que o amor pode nos entregar, ainda que contra nossa vontade. Confesso que a primeira faixa foi um dos momentos mais fortes do show, a ponto de sair um punhado de lágrimas dos meus olhos. E foi mais do que isso. Quando as lágrimas saem dos seus olhos você está confessando o que há de mais pesado dentro do seu peito. Durante a apresentação de “Delicate” eu tive a certeza de que deixar transparecer inseguranças é um modo racional de buscar novos caminhos, mesmo estando tudo sombrio e sem força.  Em “Delicate” temos versos como “So why do you fill my sorrow  with the words you’ve borrowed from the only place you’ve known?  And why do you sing Hallelujah  If it means nothing to you?  Why do you sing with me at all?”
Em seguida Damien nos apresenta ” 9 Crimes”, uma canção que nos fala de relacionamentos inadequados, de conflitos, de resiliência,  de formas pessoais de insistir naquilo que nos atormenta e que nos alimenta, ao mesmo tempo.
“The Box” é a terceira faixa apresentada pelo cantor irlandês. É uma canção que questiona os limites emocionais de um “eu”  mergulhado em uma crise de representatividade. Nessa faixa, Damien questiona a sua vida, enquanto resultado de um status quo ante rodeado de limitações emocionais e da sensação de se estar e ser livre. Durante o show, a mensagem de  “The Box” ganha contornos gigantescos. Ao vivo, com todas os instrumentais “naturalmente” apresentados, temos a sensação de que a dor pode ser mensurável, e esse é um importante caminho para sair desse caos.
Em seguida, Damien nos apresenta “The Professor & La Fille Danse”, uma faixa que surge para suavizar o que parece ser tão carente e tão silencioso.  A suavidade se dá porque há um discurso secundário  de cunho notadamente sexual. Mas, o discurso principal continua o mesmo: questionamentos sobre o amor, sobre a sua  busca interminável, sobre crises emocionais, sobres carências de sentimentos e de conclusões. É como um discurso em linha evolutiva. Como se nessa faixa encontrássemos um Damien em processo de conhecimento, de tomada de consciência, assumindo um senso de maturidade explosivo e arriscado.
A próxima faixa apresentada é “Long Long Way”. Uma faixa cheia de intensidade emocional que o Damien consegue expressar de forma quase que eloquente.  Essa faixa trata da nossa incapacidade ou até resistência em reconhecer o que perdemos e em que momento perdemos. Talvez “perder” não seja a palavra certa porque nunca perdemos o que não foi nosso. Em verdade, essa canção expõe os nossos desejos de querer retardar algo completamente perdido (por que não algo completamente insolucionável?).
“Woman Like a Man” foi uma das grandes surpresas do show porque é uma faixa irreverente e que sai da zona de crise do Damien. Há uma pegada mais “foda-se”, o que não significa uma interrupção no discurso de maturidade do cantor.
Já em “Older Chests” Damien Rice nos conforta com uma mensagem previsível, mas cheia de importância. Aqui, o cantor nos diz que precisamos de tempo, e ele pode e certamente nos dará alguma dose de maturidade, mas por mais que sejamos racionais, o tempo não pode apagar determinados sentimentos, e é aí que entramos em crise, crise de representatividade, mesmo já sendo capazes de sermos racionais. É o que podemos concluir com o seguinte:  “Some things in life may change but some things they stay the same”
“Elephant” é como um ultimato. Uma expressão arriscada do que entendemos ser o nosso limite emocional. Damien expressa aqui uma voz desesperadora.  Há um desespero por conforto, por soluções, por rompimentos, por reviravoltas, por suavidade, por entendimentos,  enfim, por tudo aquilo que nos faz chorar ás 04 horas da manhã, em busca de algum sentido, de algum caminho menos dolorido.
Já em “I Don’t Want to Change You” Damien Rice aborda um ser consciente de suas limitações, mas sem perder de vista a relação “win and win”. Mas, aqui, Damien mostra a dificuldade que nós temos de ficarmos inertes quando temos que reconhecer que perdemos no amor.
Em “I Remember”  eu percebi definitivamente que eu estava de frente com o Damien Rice. Não se tratava apenas de uma presença física. Havia uma atmosfera sentimental gigantesca ali. Havia uma vida sangrando ao longo de cada grito do cantor. Havia mais. Havia um passado que batia no peito e encontrava um presente atormentado e incerto. Havia uma voz do artista saindo do universal para o meu particular. Havia um grito preso no meu peito que buscava por algum tipo de revolução. Ali, pela primeira vez durante o show, eu pude enxergar toda a minha vida  em pouco mais de cinco minutos. Eu pude me enxergar de forma diferente. Eu senti os efeitos dos espaços abertos, das minhas dúvidas, das minhas ausências e das minhas carências insolucionáveis. Eu revivi o meu passado e tive medo de idealizar o meu futuro. Isso, eu carregava alguma espécie de medo do futuro porque lá no fundo eu “me lembrava” e ainda sentia feridas. Em “I Remember”, pela segunda vez durante o show os olhos pesaram de lágrimas, e dessa vez não foram só elas. Os meus olhos ardiam, as pernas ficaram bambas e o coração implorava por algum tipo de calor humano. Com “I Remember” tudo ficou tão claro e era dessa clareza que eu vinha me recusando a enfrentar. E se havia uma necessidade de enfrentamento, certamente eu me refiro á  minha dificuldade de estabelecer relacionamentos, de me expressar emocionalmente, de sempre estar em crise de representatividade. 
“I Remember” tem o dom de pegar em sua mão e te levar até a ponta de um abismo e te dizer: “A escolha é sua”. Por muito tempo eu recusei a fazer essas escolhas porque elas nunca foram suficientemente claras. Em verdade, “I Remember” não tem a força de te dar claridade, mas ela tem algum tipo de força. É uma força que atravessa todo o seu corpo e todo o seu senso de passividade. Ali, no palco, eu vi um Damien Rice cheio de raiva, mas acima de tudo cheio de amor pra dar, e principalmente para receber. Eu vi um discurso de solidão, mas extremamente consciente. E quando somos conscientes e solitários iremos  nos apegar ao silêncio porque é a ele que atribuímos, mesmo que involuntantariamente, a capacidade de confortar nossa alma.
Seguindo com o show, Damien nos apresenta “Volcano”, uma faixa em total imersão com o espirito de um “eu” quase afogado pelo seus sentimentos, e pela sua realidade emocional mergulhada em fracassos. De forma direta, “Volcano” representa as coleções de “não’s” que recebemos da vida e do caminho natural pelo qual reagimos a todos eles: a introspecção. Nessa faixa Damien canta algo como: “What I am to you is not what you mean to me”.
Em “It Takes a Lot to Know a Man”, terceiro grande momento do show, Damien Rice discorre sobre a dificuldade que é se relacionar com seres humanos. Na verdade, é uma dificuldade que está visível durante todo o seu show, mas nessa música há uma importância maior. Damien aborda a complexidade das relações humanas. O medo de perder é um tema explícito, assim como a dificuldade de entender o que se passa com as outras pessoas. Essa faixa abriu pra mim uma margem de interpretação  muito intensa. Com essa canção eu passei a não me questionar mais, mas sim as pessoas com quem eu tinha interesse em me relacionar afetivamente. Eu passei a entender a superficialidade das pessoas e encará-la com algum tipo de indiferença.  É que na verdade, ser indiferente pra mim se tornou um modo racional de expressar a minha crise de representatividade. Porém,  eu tenho a plena consciência de que não se passa uma vida inteira assim, e eu também estou ciente de que eu não sei qual o momento certo para agir ou simplesmente sair de cena. A bem da verdade, “It Takes a Lot to Know a Man” estava ali naquele show para isso, para nos fazer entender que “It takes a lot to know a man, It takes a lot to understand the little boy enraged”.
“Cannonball” surge em tom de fim de show, com toda a efervescência sentimental do Damien Rice.  Em Cannonball Damien além de nos apresentar uma das melhores faixas do seu repertório, nos traz lições importantes para a vida como vemos em: “There’s still a little bit of your face I haven’t kissed /  There’s still a little bit of your words I long to hear /  And I don’t wanna lose.  It’s not hard to grow when you know that you just don’t know”
“The Greatest Bastard” narra desencontros e aborda uma necessidade de ação, como vemos em: “Some dreams are better when they end”.
A penúltima faixa do show ficou por conta de “Grey Room”. Citando a minha colega Luciana que estava no show, essa canção é feita para dias cinzas, literalmente.  Em Grey Room o destaque fica por conta dos versos: “So I’m all alone again crawling back home again / And all that I write is a grey, grey tune”.
Para fechar o show,  Damien apresenta o mega sucesso “The Blower’s Daughter”, uma canção que toca a sua alma e não cobra nada de você, apenas te recorda como é razoável nunca desistir do amor, de idealizá-lo, mesmo que não exista nenhum fundamento lógico para continuar, investir. 
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