This is Acting: Uma tentativa bem sucedida de dar publicidade a um amor que transita por dois níveis de consciência e tenta se livrar de uma fragilidade imposta

Um amor deixado para trás é um desencanto forte e emblemático. É que não importa quanto tempo vai passar,  o amor ainda estará lá, á espera de soluções, de acordos emocionais.
Quase sempre um amor deixado para trás é sinônimo de conflitos, de incertezas. “Como teria sido se eu tivesse contado tudo? Como teria sido se eu não tivesse sufocado os meus sentimentos?
Um amor deixado para trás, pra mim, é como um poço de convicções tocadas apenas pelo vento. É como um discurso poético feito para evanescer, sem ao menos ter alcançado o seu interlocutor mais importante.

Um amor deixado para trás fica marcado na sua pele e ele altera o seu tom de respirar e de se mover.
Acredito que um amor perdido ainda em sua concepção é extremamente arriscado para se analisar. Porque ele é cheio de importâncias, apesar da sua fragilidade existencial.
Digo isso porque um amor que sobrevive ao silêncio, ao medo, ao desconhecimento, á inocência é em grande verdade o nosso principal aliado para o nosso ato de autoexorcisimo.

Que a vida é ácida todo mundo sabe. Que a vida pode fazer do amor um grande ato de silêncio, eu acredito que poucos saberão ou viverão.
E dói muito. Não é uma dor por não ter, mas uma dor por guardar algo que não é clandestino. Por guardar algo digno de plateia.
Sou convicto de que o amor não foi feito para se esconder, e eu acho que eu teria sido mais leal comigo mesmo se eu soubesse disso lá pelos meus 17/18 anos.

Se lá no passado eu aprisionei o amor, hoje eu quero libertá-lo, mas sem ferir, porque por detrás do meu senso de liberdade reside um senso de maturidade e eu os tenho como características indissociáveis.
Sustentar um amor por alguém que se amou no passado é entender que no presente há outro contexto e pessoas envolvidas. E eu também sou adepto da ideia de que para sustentar um amor precisamos de discos, muitos discos.

 E o novo trabalho da Sia, intitulado de “This is Acting” veio para reforçar ideias, convicções e sentimentos que de alguma forma consegue despertar em nós um ciclo de reabertura, de renascimento.
No novo disco da Sia o amor é um ato, ponto. Um ato de agir, de tomada de coragem. Eu preferiria dizer mais do que isso. “This is Acting” nos salva da nossa própria angústia e indiscutivelmente há uma angústia. Há um amor preso e a parte mais complicada é que esse amor continua preso, muito embora já exista um “eu” consciente e decidido.

“This is Acting” é sobre a nossa capacidade de nos declarar, de dar publicidade ao amor. O novo disco da Sia reflete o que é amar em segredo e vou mais além. “This is Acting” aborda um discurso de transição de um “eu” que em certa altura da vida começa a se questionar: “Por que devo amar em segredo? Por que aprisionar, por que escravizar?”
Qualquer semelhança com o que eu escrevi acima com a minha realidade não é mera coincidência e talvez a razão pela qual eu já considere “This is Acting” um dos discos mais importantes do ano.


O disco abre com a visceral “Bird Set Free”. Tudo o que eu tentei dizer acima pode ser visto nessa canção. Um discurso de libertação, um discurso de um “eu” que luta para não se perder e que quer dar vida ao que sempre esteve morto, preso, em um silêncio injustificável. Em certa altura Sia canta: “Yes, there’s a scream inside that we all try to hide.  We hold on so tight, but I don’t wanna die, no.  I don’t wanna die, I don’t wanna die / Sim, há um grito interior que todos tentamos esconder. Nós seguramos tanto, mas eu não quero morrer, não. Eu não quero morrer, eu não quero morrer”.
 É complicado amar alguém e você transformar esse amor em um grito angustiante. Amor tem que ser dito, não importa se ele será correspondido, porque para amores não correspondidos temos bares e para amores nunca ditos temos incertezas.

“Bird Set Free” tem uma linha emocional que flerta desabafo com superação. É como se o “eu” lírico atingisse a um só tempo dois níveis de consciência. O primeiro é se enxergar e perceber o seu status quo. É perceber que ao longo do tempo fizemos do amor uma grande vítima, quando ele foi feito para ser o grande herói da história. Isso. Acho que “Bird Set Free” resgata um discurso de heroísmo. Nesse primeiro nível de consciência “Bird Set Free” reconhece a fragilidade envolta do amor e o mais importante, é uma fragilidade imposta. Talvez pelo medo de se declarar, talvez pelo medo dos estereótipos sociais, talvez pelo pânico de dizer que você ama alguém como você.
O segundo momento de consciência de “Bird Set Free” é que, sem desconsiderar as suas próprias visões, o “eu lírico” entende que precisa subverter este status de prisão. É como se ele começasse uma guerra implacável para refazer, recontar a sua história, mesmo que isso implique algum tipo de desconforto. “Bird Set Free” é sobre libertação, sobre um senso de consciência que duela com quem quer seja para fazer de novo, para dizer o que ficou marcado em um contexto.
E aqui eu preciso abrir um parêntese para falar de como essa canção casa perfeitamente com a minha história emocional. No passado eu tive um amor e eu o aprisionei, mesmo que involuntariamente. Com o tempo, e com o senso de maturidade batendo á porta eu percebi que eu errei feio. Errei porque eu deveria ter dito a ele. E por não ter dito hoje eu me sinto vivendo nessa fase de transição proposta por “Bird Set Free”. 
Fechando o parêntese,  com “Bird Set Free” Sia nos prova que tudo na vida é sobre o amor. Sobre a nossa capacidade de perder, mas perdendo apostando no amor. Isso. Amor está relacionado com apostas. Se nós apostamos nele é porque nós acreditamos, e acreditar é o primeiro passo para buscar liberdade.
A segunda faixa é ocupada por “Alive”, uma canção com uma capacidade incrível de exorcizar todos os nossos demônios. “Alive” é sobre superação, sobre continuar respirando a cada tempestade que entramos, ainda que por pura inexperiência. “Alive” pode ser sobre amores, mas também pode ser para outros aspectos da vida. É que ela injeta força em nós, para não desistirmos, para a gente olhar para trás e enxergar crescimento, oportunidades.  “Alive” é conturbada porque há um “eu” que aos gritos diz que ainda está de pé, respirando, literalmente.
“One Million Bullets” aposta no amor como um recinto de segurança. Aqui, encontramos um “eu” mais confortável, mas o conforto não quer dizer que alcançar o amor foi uma trajetória fácil. Há guerras no percurso e isso é devidamente retratado nessa faixa. Mas, o mais interessante é que Sia no final das contas diz que faria tudo de novo pelo o amor.
“Move Your Body” é sem dúvida a canção mais comercial do disco. É uma balada pop viciante e ao mesmo tempo cheia de inspiração. “Move Your Body” fala de libertação de uma forma mais sutil, mais leve, dançante, pop. Perfeita para as pistas de dança, “Move Your Body” sensualiza na medida certa e desperta desejos sexuais ao mesmo tempo que trata de liberdade para o amor.

O ouvinte de “This is Acting” ao ouvir o novo trabalho da Sia deve estar preparado para ver vários discursos implorando por liberdade. E eu sou obrigado a dizer que a cantora australiana soube fazer com que esses discursos ficassem harmônicos entre si, mesmo transparecendo no final um grande discurso explosivo em busca de sobrevivência.
“Unstoppable” é mais uma balada que se destaca no novo trabalho da Sia. Com um discurso que não foge da proposta do álbum, “Unstoppable” retrata um “eu” que apesar de hesitar em determinados momentos está plenamente consciente da sua força interna, da sua capacidade de se propor algum tipo de ação. “Unstoppable” é sobre a nossa sacada de não ter medo de perder e muito menos fazer do medo algum motivo para não lutar (em busca do amor).
Talvez eu devesse considerar “Cheap Thrills” como uma faixa que não casa com o “This is Acting”. É porque nessa faixa Sia se reserva apenas em deixar um discurso de diversão. O ponto alto dessa faixa é que a cantora diz que é sexta feira e ela contextualiza uma ida para uma pista de dança. Obviamente que não há nessa faixa nenhum discurso em prol da tão pontuada liberdade do/para o amor, ao menos explicitamente. Por isso, eu acredito que, embora seja uma faixa mediana, não conversou com as demais faixas.
“Reaper” é sobre atingir autocontrole, ter ou estar em algum nível de estabilidade emocional, ainda que não esteja tudo resolvido. É como um momento em que nos damos um “time” para tudo, inclusive e principalmente para amores instáveis.
“House on Fire” é o lado oposto de “Reaper”. Em “House on Fire” encontramos fragilidade, um “eu” carente e inseguro. É interessante essa contraposição de discursos, pelo menos nessas duas faixas porque essa contraposição representa com fidelidade os caminhos que traçamos ao longo da vida. E isso de uma forma ou de outra dá algum sentido para o discurso final do “This is Acting”. O importante é ter em mente que a busca pelo amor ou a sua libertação são atos não lineares.
“Footprints” aborda limites emocionais de um “eu” ainda inseguro e em algum estado de dor.  É uma faixa mediana, mas se perde no disco se comparada com outras faixas.
“Sweet Design” é uma canção que deve ser esquecida, isso é o que realmente importa.

“Borken Glass” resgata a mensagem principal do disco e aborda um “eu” que reconhece a necessidade de ceder, em algum momento. Há um balanço poético prévio, há discurso-desabafo, há em cada canto um “eu” que visivelmente não acredita em um contexto em potencial. É complicado fazer essa afirmação porque no fundo nós alimentamos alguma esperança porque nós somos movidos por fé. E talvez essa seja a grande vibe de “Broken Glass”: ceder em algum momento e apenas ceder.
“Space Between” é uma balada romântica com a responsabilidade de representar distâncias emocionais, espaços entre. No sentido de ausência de um “nós”ou até mesmo de consensos. Há versos como “The space between is deafening / O espaço entre nós é ensurdecedor / Imagination cures loneliness when you become a prisoner / A imaginação cura a solidão quando você se torna um prisioneiro”.
Estou certo que “This is Acting” se destacará como um dos mais preciosos discos de 2016 e “Bird Set Free” e “Move Your Body”, cada uma com sua mensagem, serão fortes candidatas á melhor música pop do ano.

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