Wrong Crowd: Ao estabelecer novos caminhos, Tom Odell se mostra equilibrado para mostrar as suas novas conclusões emocionais.

Lembro-me como se fosse ontem quando o Tom Odell surgiu para o mundo com o tão aclamado disco de estréia “Long Way Down”. Na vida real parece ser contraditório um jovem com pouco mais de vinte e três anos conseguir sustentar o seu equilibrado discurso de instabilidade emocional, como proposto pelo cantor naquele disco. Contradições à parte, Tom Odell convenceu e muito.

Para suceder o seu debut, o cantor procurou estabelecer novas pontes, sem desconsiderar a sua trajetória narrada no primeiro disco. Ao estabelecer novos caminhos, Tom Odell se mostra equilibrado para mostrar as suas novas conclusões emocionais. Mais descontraído e sem deixar de ser centrado, Tom Odell aposta em um discurso em que se privilegia a sutileza como forma de expressão.

Porém, ao estabelecer essa ponte emocional, Tom Odell ainda faz referências claras ao seu disco antecessor. Há um ar de romance, há um ar de dor, há um querer se perder, mas todos esses resquícios do disco anterior aparecem como personagens coadjuvantes.

O cantor tenta desapegar da dor tão centralizada no álbum anterior e para isso não hesita em transitar em um mundo poético dual (ser leve/ser instável). Wrong Crowd traz uma grande mensagem para o seu público: até que ponto vale alimentar o sofrimento? Até que ponto a dor desencadeada pelo amor deve ser tema central de nossas vidas? Até que ponto sustentar uma instabilidade emocional quando em verdade somos capazes de enfrentá-las e entendê-las como mais um conceito provisório?
Wrong Crowd flerta entre o pop romântico e o pop contemporâneo, sonoridade que artistas como Coldplay, Florence + the Machine e Sia já experimentaram.

Tom Odell Wrong Crowd
O álbum contém 15 faixas na sua versão deluxe e a primeira canção é “Wrong Crowd”. Já na primeira faixa Tom Odell mostra a existência de uma ruptura retórica em comparação com o seu disco anterior. “Wrong Crowd” (a canção) é uma balada com forte apelo comercial e que mostra o talento do Tom Odell para transitar por ritmos e discursos diferentes. Sem perder o seu charme e a potência de sua voz, Tom Odell canta: “Ohh, I wish I can find somebody that could treat me right / Ohh, eu queria conseguir encontrar alguém que poderia me tratar bem”. Com um toque de rebeldia típica de um jovem de vinte e poucos anos, Wrong Crowd é uma balada descontraída sobre devaneios de uma vida marcada por encontros com pessoas erradas.

A segunda canção é a potente “Magnetised”. Visceralmente pop, “Magnetised” nos revela um Tom Odell pronto para as pistas das baldas noturnas. Nessa faixa, que pode ser considerada uma das melhores do disco, Tom Odell demonstra a sua necessidade de abordar a falta do amor na sua vida e ao mesmo tempo reafirma a sua perseverança em continuar o seu caminho, ainda que meramente experimental.

Já “Concrete” é uma faixa com uma pegada mais Jazz-acústico. Talvez a principal mensagem nessa canção, que é um tanto enigmática, seja revelar os desejos sexuais de um jovem cantor carente e cheio de amor para dar. É preciso advertir o meu interlocutor que, se há uma mensagem de conotação sexual, essa mensagem é sutil, e seria quase imperceptível se não fosse pelo seguinte trecho: “Just the two of us and no sheet. Just your feet rubbing up against my / Apenas nós dois e nenhum lençol. Apenas seus pés esfregando contra os meus”.

“Constellations”, faixa que tem uma sonoridade muito próxima do disco anterior, é uma balada romântica para reafirmar o amor, a sua busca, o seu encontro. Tom canta: “Maybe I’m just crazy, maybe I’m just high. You could kiss my lips a thousand times and they would never dry / Talvez eu esteja apenas louco, talvez eu esteja apenas chapado. Você poderia me beijar os lábios mil vezes e eles nunca secariam”.

“Sparrow” é um discurso poético estabelecido entre Tom Odell e um passarinho. Nesse discurso o cantor tenta buscar as suas respostas em um ser irracional. É evidente que se trata de um discurso figurado em que se vê um “eu” desiludido com a sua própria racionalidade. Quero dizer que o uso da razão já não é suficiente para que Tom encontre as respostas que precisa. Fica evidente que aqui o cantor tenta vencer a dor, o vazio, o sofrimento e tenta estabelecer uma superação para uma vida sem sentido. Odell canta: “Speak, sparrow, speak. Oh, please, won’t you try? Tell me all the answers to this meaningless life / Fale, pardal, fale. Oh, por favor, você não vai tentar? Me diga todas as respostas para esta vida sem sentido”.

“Still Getting Used to Being On My Own” estabelece uma relação entre Tom, o seu piano e os seus devaneios emocionais. Aqui, o cantor tenta se acostumar a estar sozinho, sem perder a sua capacidade de idealização.

“Silhouette”, que é outra grande surpresa do disco, mostra que Tom Odell é um homem que precisa ser amado e ele não só tem plena consciência disso como relata fatos que sustenta essa afirmação. É um acordar no meio da noite com o coração pulsando forte e perceber que esse pulsar é causado por um sentimento tão complexo, mas tão desejado.

Em “Jealousy” Tom retrata um “eu” inseguro, mas em constante crescimento emocional.

“Daddy” é uma faixa com forte uso de instrumentos como bateria e guitarra, o que nos permite afirmar que essa é a faixa que mais se distancia da sonoridade do Tom Odell. Com uma letra estranha para o estilo musical do Tom Odell, Daddy certamente é a música que deveria ter definitivamente ficado fora do disco.

Por sua vez, em “Here I Am” Tom retoma a mensagem do disco e apresenta uma canção com uma melodia pop irresistivel. Com uma letra ainda focada no amor, em um possível cansaço de tentar alcançá-lo, Tom ainda persiste e aposta em si, na sua capacidade de ser genial diante das adversidades da sua vida sentimental.

Em seguida Tom nos apresenta a gigante “Somehow”. Destacada pela sua serenidade, “Somehow”resgata a beleza de sorrisos intencionais e a importância da interconexão que o amor tem em nossas vidas, a ponto de ser o principal motivo para continuarmos trilhando o nosso caminho, mesmo diante de um mar de incertezas.

“She Don’t Belong to Me” é uma balada pop que perde a sua importância diante de outras canções fortes como “Magnetised”. e “Somehow”.

“Mystery” mostra Tom Odell em busca do seu caminho, ainda que incerto. Aqui, o cantor não desconsidera o fato de ser um homem de 24 anos, com muita coisa para aprender, mas o que ele quer é ponderar sobre o amor.

Penúltima faixa do disco, “Entertainment” valoriza a beleza da voz do Tom Odell, com um tímido “eu” poético possivelmente bissexual/gay.

O álbum termina com “I Thought I Knew What Love Was”, uma faixa que relata as intuições de um “eu” (possivelmente gay?) acerca do amor. Aqui, não se tenta decifrar o amor, mas há uma tentativa de estabelecer algum tipo de parâmetro aceitável.

De modo geral, podemos afirmar que Tom Odell foi muito coerente em lançar o novo disco, embora nesse novo trabalho ele tenha distanciado bastante da sua sonoridade original. Se antes o cantor era comparado com artistas como Jeff Buckley, no novo trabalho ele poderia ser comparado com Florence and the Machine.

Com a resenha do Wrong Crow vamos inaugurar um novo estilo de análise de discos, atribuindo uma avaliação que variará numa escala de 0 a 10.

  Avaliação capppuccino:  Nota 8,0.

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Um comentário sobre “Wrong Crowd: Ao estabelecer novos caminhos, Tom Odell se mostra equilibrado para mostrar as suas novas conclusões emocionais.

  1. Ótima análise, esse novo disco do Tom é maravilhoso, mesmo tendendo um pouco pro comercial, ele não perdeu a essência do que é o estilo do Tom. Incrível!

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