No Sound Without Silence aborda perdas, sofrimento e solidão sob uma perspectiva coletiva

Eu acredito que a nossa capacidade de dizer o que queremos dizer, sem nenhum espécie de censura, sem nenhuma interferência negativa, é uma forma de purificação. É que quando estabelecemos o nosso discurso com o nosso interlocutor, damos legitimidade à nossa própria voz. E, tenho que afirmar que buscar legitimidade para os nossos sentimentos é uma qualidade extremamente rara atualmente, ainda mais em se tratando de discos.

Daí, quando eu me deparo com um disco que é capaz de interconectar as minhas afirmações com a realidade,eu sinto que verdadeiramente não estou sozinho nesse universo. Tomarei como objeto de análise o disco “No Sound Without Silence” da banda The Script, lançado em 2014.

No Sound Without Silence

Simbolo de um discurso que busca legitimar as suas próprias emoções e convicções, “No Sound Without Silence” é antes de mais nada a expressão máxima de uma voz terrivelmente apaixonada e não correspondida. Não se trata de uma voz perdida, pelo contrário. Temos nesse disco uma voz engajada sentimentalmente.

“No Sound Without Silence” indica que somos capazes de examinar as nossas próprias experiências e encará-las como ilusões temporárias.Muito mais do que um álbum para canalizar um discurso de dor, o disco do The Script é a prova viva de como as nossas análises são importantes para o nosso crescimento e para a gente conseguir desconstruir o que pensamos ser indestrutível.

Cada canção nesse álbum parece se intercalar para no final dizer aos seus interlocutores algo tão realista, mas que as circunstâncias da vida nos faz desperceber. O amor está lá, ocupando o seu importante tema central. Mas, a dor causada pelo amor não é desconsiderada. No Sound Without Silence é muito mais do que um disco sobre amores perdidos ou sobre a dor da solidão. Esse álbum é sobre a nossa capacidade de renascer quando pensarmos que tudo está perdido, essa é a grande questão.

Há várias abordagens que se interconectam e faz esse disco ter um discurso confessional capaz de nos inspirar para toda a vida. Abaixo realizo uma análise extremamente pessoal sobre cada faixa do disco.

No Good In Goodbye:

A arte de um coração partido contrasta com o peso de uma despedida. Há uma beleza oculta em um coração dolorido. Talvez é a partir dele que conseguimos colocar em prática um discurso emocional baseado em um autêntico “self-love”.

A dor de um coração partido é retratada como se fosse potencialmente incurável, ainda mais quando provocado por um amor tão genuíno, tão idealizado sem limites.
Apesar da dor, há um “eu” consciente das suas responsabilidades e do seu mundo, no qual a premissa mais importante é que não podemos voltar no tempo.

E por entender isso, nessa faixa não há uma prisão, não há um “eu” estacionado no tempo. O que há é um “eu” experiente e seguro porque para analisar as próprias dores é preciso estar plenamente certo de que a nossa segurança emocional não será vencida pelo nosso ego.

Aqui, há um amor em cena e podemos afirmar com certeza que embora ele não exista no plano real, há um status contemplativo que faz a dor se esvaecer em uma linda mensagem de superação.

Esse deve ser o lado bom da dor. Poder usá-la a nosso favor, como fator de crescimento, de empoderamento. A dor existe e talvez existirá por um longo tempo, mas ainda que ela exista, também há uma poética no ar, fruto de um amor não correspondido, mas que não deixa de ser o que ele é,  em toda a sua intensidade.

Superheroes:
Com uma potente mensagem de superação, “Superheroes” é uma espécie de mantra protetor para toda a vida. Uma faixa grandiosa tanto nas batidas quanto na sua capacidade de nos tocar profundamente. Se na faixa anterior a dor foi evidenciada de forma direta, em Superheroes há uma tentativa bem sucedida de nos fazer perceber que essa dor não faz parte de nós, que ela é provisória e que a grande sacada dessa vida é entender que o sofrimento cessa e somos nós , na nossa luta diária, que iremos superá-lo.

Aqui, The Script canta: When you’ve been fighting for it all your life. You’ve been struggling to make things right. That’s how a superhero learns to fly. Every day, every hour. Turn the pain into power / Quando você vem lutando por isso a vida toda, você vem se esforçando para fazer as coisas certas. É assim que um super herói aprende a voar. A cada dia, a cada hora. Transforme a dor em energia”.

Man On A Wire:
Essa é uma canção que projeta para fora tudo o que é pesado em nós. A solidão não é tratada individualmente aqui. Com ela há um sentimento de insegurança potencialmente explosivo. “Man On A Wire” é uma canção para denunciar limites emocionais. São limites que muitas vezes são difíceis de ser exteriorizados, mas nessa canção The Script consegue traçar uma abordagem tão delicada que é impossível não se sentir profundamente tocado por tanta sinceridade em se expor.

Há uma preocupação em não se perder, em não cair, em não conseguir se sustentar diante de um caos emocional visivelmente inteligível.Apesar desse caos, não há riscos porque fica evidente nessa faixa um desejo de superação.

It’s Not Right For You:
Nessa faixa há uma aposta em um discurso cujo tema central é abordar tentativas mal sucedidas. Quantos de nós queríamos ter feito algo de novo e de forma diferente? Quantos de nós estamos mergulhados por uma insatisfação existencial, mas não somos capazes de começar de novo? Quantos de nós não temos coragem de fazer novas apostas para as nossas vidas? Quantos de nós estamos apegados às nossas próprias dores e temos medo de encará-las para encontrar o nosso próprio conforto? “It’s Not Right For You” é sobre todos esses questionamentos. De alguma forma essa canção nos incentiva a entender a provisoriedade da vida e não menos importante, nos ensina a lutar por aquilo que nós acreditamos que nos fará bem.

The Energy Never Dies:
Nessa faixa The Script repete a sua preocupação em aproveitar a vida a cada minuto. Há um “eu” plenamente consciente de que não seremos eternos e que por isso tudo o que fazemos aqui tem que ser valioso, com algum propósito. Apesar da plena consciência de que o tempo passa e que a morte chegará para todos nós, nessa faixa há uma retórica baseada em um amor transcendental. Em poucas palavras, o amor nunca morreria, ele transcenderia para o universo. Discurso poético à parte, “The Energy Never Dies” tem a sua relevância, pois mais uma vez nos traz a noção de provisoriedade da vida e exalta um discurso para traçar caminhos com objetivos.

Flares:
Ás vezes tenho a impressão de que somos educados sem aprender aquilo que é o mais importante nessa vida: Somos seres humanos, o que em outras palavras quer dizer que não seremos eternos. E não é só nós que iremos acabar, mas tudo que está em nossa volta também. Pessoas que amamos, objetos materiais, animais de estimação, sentimentos, uma carreira, sonhos, não importa o que seja, nada é eterno. E, partindo daí, “Flares” aborda perdas, sofrimento e solidão sob uma perspectiva coletiva. A mensagem é direta: Se nada no mundo é eterno, os nossos sentimentos de dor, de sofrimento, de vazio também não o são. E, a parte genial dessa canção é demonstrar que não estamos sozinhos no mundo, que todos os nossos devaneios significam que somos seres humanos e não há ninguém nesse mundo que não tenha experimentado ou que não irá experimentar o mesmo que nós.

Se fazemos parte de um coletivo e se colecionamos sentimentos universais, a grande mensagem que fica aqui é que somos parte de um processo complexo de muitas coisas e talvez não deveríamos nos apegar tanto aos nossos sentimentos negativos. Isso. Essa talvez seja a minha visão para a mensagem global que o “No Sound Without Silence” se propõe: desapegar-se do sofrimento. Não que isso signifique não encará-lo de frente. Desapegar significa ação aliada com proteção. Devemos agir e devemos nos proteger, sempre.

Army of Angels:
Em Army Of Angels The script afirma sem medos de oposições que o amor é uma batalha e que a vida é uma guerra. Porém, há um “eu” disposto a sangrar até o fim. Há um “eu” disposto a acreditar nesse amor ainda que ele seja plenamente indefensável. Assim como em todas as faixas do disco, Army Of Angels aposta no amor como a principal arma para a nossa superação.

Never Seen Anything Quite Like You:
Uma faixa para fazer uma linda declaração de amor, especialmente para um casamento.

Paint the Town Green:
Nessa canção The Script aborda um sentimento desencadeado pela distância de sua própria casa. Porém, não há desejo de retorno e sim de fazer do novo lugar o seu próprio lugar.

Without Those Songs:
The Script retrata as canções como válvulas de escape para aqueles momentos da vida em que nada dá certo.

Hail Rain or Sunshine:
Finalizando o álbum, The Script apresenta uma faixa em que o seu eixo discursal é demonstrar a necessidade de sonhar com dias melhores.

Avaliação cappuccino: Nota: 8,9.

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