Em “In A Perfect World” encontramos uma confissão de sentimentos íntegros em busca de algum entendimento, de algum fortalecimento, ainda que exista uma atmosfera existencial indefinida e ferida.

Amar é um ato poético, mas nem por isso deixa de ser controverso. É enigmático, precisamente. A gente não aprende amar. Mas, é colecionando tentativas que a gente descobre ao menos o seu inverso. Não um inverso literal. É um inverso imposto. É um quase sempre momento para reflexão. E, refletir muitas vezes não será a solução. Porque, mais uma vez, amar é controverso. É um controverso que a gente insiste em dizer disfarçadamente que é puramente poético.

Amar é uma autodestruição visceral. Porque a gente se perde cada vez que amar se resume a um ato de loucura, um ato de ilusão, um ato inacabado. Amar é entender que o amor não é a regra e muito menos a exceção. A gente se perde. Sim. É uma perda caracterizada por erros de abordagens. Uma perda que tem voz.

Perdemos não só porque somos provisórios. Perdemos porque somos ingênuos e a ingenuidade não é poético, muito menos controverso. Amamos e acreditamos que o nosso amor, por ser nosso, sempre será unanimidade. Mas, em certa altura da vida já posso reiterar, ainda que em excesso, que o amor não é unânime e que ele é controverso e a gente esquece disso, a gente força contextos.

E quando não alcançamos os nossos almejados contextos a gente cai. Eu não disse tropeça, eu disse cai, perigosamente. E é quando caímos que buscamos algo para nos dizer o que já deveríamos saber desde o começo: o amor é poético, o amor é controverso, o amor não é unanimidade.

Há um impasse. Há conclusões amargas e há um “eu” que precisa se levantar. Porque cair é muito fácil. O difícil é se levantar sabendo que a gente caiu porque o chão estava muito distante de nós. Isso. A gente precisa de chão. Porque voar às vezes é muito arriscado. É libertador, inquestionavelmente.

Mas, voar pressupõe ter um plano de voo. Sem ele estamos abrindo todas as possibilidades para que o amor, além de poético e controverso, mostre ser um sentimento vazio e insensível. A culpa não é do amor, é da importância que damos. Talvez mais do que isso. Há uma culpa. Há análises emocionais que vão confrontar as nossas próprias ações e surgirá uma necessidade de um grande grito por ajuda.E só haverá algum sentido no nosso grito se entendermos que a perfeição é um caminho árduo e que não vale a pena.

Não gosto e realmente não vou sintetizar. Mas, para continuar eu definitivamente preciso contextualizar. Desta vez o disco se chama “In A Perfect World”. É um disco que quer construir a partir da desconstrução. É um disco alerta. “In A Perfect World” é um álbum que denuncia o lado amargo da (nossa) ignorância emocional. Apoiado em uma atmosfera fortemente decadencial, Kodaline explora um discurso que busca o seu ponto de equilíbrio no meio de um caos provocado genuinamente por erros de abordagens. Em “In A Perfect World”encontramos uma confissão de sentimentos íntegros em busca de algum entendimento, de algum fortalecimento, ainda que exista uma atmosfera existencial indefinida e ferida.

E é aqui que surge o elo entre minhas declarações iniciais e o disco em análise. “In A Perfect World” é um elo perfeito para nos provar o que ignoramos propositalmente. Ignoramos o que o amor pode ser e fazemos questão de vê-lo como o que realmente queremos que ele seja. E, talvez somente nesse exato momento que precisaremos buscar a nossa válvula de escape. Só a partir do momento que entendemos que damos importância demais para algo que é poético demais e controverso demais que entenderemos que, em algum momento da nossa vida precisaremos desacelerar as nossas próprias emoções.

Fazendo uma imersão irrestrita no álbum “In A Perfect World” da banda Kodaline, com certa margem de segurança encontraremos algumas certezas. Claro que não serão certezas imutáveis. São certezas capazes de abrir novos horizontes, novas percepções. In A Perfect World trabalha com a ideia de um mundo perfeito. Melhor. Há uma tentativa de desconstruir esse mundo perfeito. Porque a perfeição é uma construção poética, controversa e não unânime.

E, isso fica muito claro quando tentamos entendê-la a partir do amor. Acredito que uma parte importante da nossa vida seja poder aprender sobre a importância de ceder. Eu não diria que se trata de um ato de reconhecer uma perda. Acredito que seja um ato para reconhecer algo inerente à nossa existência, que poderíamos chamar de um ato de alívio.

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“In A Perfect World” abre com a faixa “One Day”, que é, em verdade, uma segura lição para toda a vida. Aqui há uma abordagem do ponto de vista da perda, do passageiro, da desconstrução das nossas percepções equivocadas. One Day é uma canção que nos alerta para os riscos dos nossos falsos conceitos. Tentamos, equivocadamente, acreditar que o que sentimos é algo que irá se sustentar e que jamais irá se esvaecer. Não é só uma abordagem para nos alertar para o lado provisório da vida. É algo mais amplo, mais tato. É como uma voz nos dizendo que a instabilidade será a nossa melhor e pior amiga, o tempo todo. Ser instável ou viver em um mundo instável exige cautela. Há riscos. E a maior cautela aqui com certeza é perceber que não temos garantias nenhuma na vida. E, por isso, devemos encarar os nossos altos e baixos como “acordos temporários”.
One Day é uma canção que converge os nossos erros de abordagens em uma potente necessidade de gritar, de pedir ajuda. E, em todo momento há uma regra fundamental sendo trabalhada. É o fator tempo, um grande limitador de sonhos e desejos.

Já “All I Want” trabalha no aspecto contemplativo do amor. Partindo de um adeus, All I Want aponta a existência de uma história inacabada ou em outras palavras, ela trabalha o amor como um sentimento poético e que por isso, nesse contexto, podemos tudo, inclusive idealizar sem limites. Com um coração extremamente ferido, temos em All I Want um “eu” tomando a consciência de que o amar é controverso e que aquela história de dor é, em verdade, uma nova descoberta sobre a profundidade da vida.

Em seguida temos a faixa “Love Like This”. Nessa canção a banda Kodaline nos aponta a importância de aprender a desacelerar algumas emoções. É uma regra vital e implacável. Somos provisórios e o que sentimos também. O amor acaba e junto com ele devemos aprender a desapegar de todas as construções que fizemos, mesmo que elas sejam a nossa principal sustentação nessa vida.

Já na balada romântica “High Hopes”, Kodaline entende que recomeçar é um ato que estará à nossa disposição como a única alternativa e, por isso, não será fácil estabelecer um novo começo.Apesar da evidente insegurança de quem se propõe a começar de novo, nessa faixa encontramos um “eu” confiante no poder libertador de trilhar novos caminhos.

“Brand New Day”, por sua vez, mostra um discurso idealizador e otimista com relação ao futuro. E, talvez essa seja a melhor postura que podemos adotar diante da vida. Sem perder a noção da realidade, sobretudo a realidade de conceitos, podemos viver uma vida apostando em dias calmos.

A próxima canção é “After the Fall”. Um canção que trata da dificuldade de se trilhar caminhos indefensáveis. Muitas vezes a vida nos fará entender que os caminhos que idealizamos não foram feitos para nós. E, quando a vida nos dá vários indícios de que estamos indo para o lado errado, um sentimento gigantesco nascerá em nós e o nome disso se chamará vontade de desistir. Eis, então, a mensagem dessa canção: nessa trajetória de tomada de consciência iremos ter todos os motivos para desistir e não só desconstruir sentimentos. No final das contas, After the Fall nos diz que, às vezes, o tempo poderá nos ajudar a subverter a vontade de desistir em algo produtivo, ao menos no plano de tomada de consciência.

“Big Bad World” denuncia a dualidade existencial como uma grande prática recorrente em nossas vidas. Aqui, a ideia é deixar transparecer a noção de que não há nenhuma zona de conforto. E, vou mais além. Repetindo a fórmula de provisoriedade da vida, Big Bad World tenta fazer a sua vida valer a pena, ainda que seja marcada por indefinições, perdas, fracassos, inseguranças e um sem limites de sentimentos que existem e que nos fazem mal o tempo todo.

“All Comes Down” é pra mim o ponto alto do disco. Uma faixa com um poder devastador. All Comes Down tem o poder de roubar as lágrimas que você tanto vem se recusando a mostrá-la para o mundo. É aqui que há um ato de consciência explícito com relação ao amor. É aqui que há um “eu” confessando os seus erros de abordagens. É nessa canção que há um “eu” reconhecendo o lado devastador do amor. É exatamente aqui que o amor não cabe mais em um discurso poético. É aqui que há um discurso trabalhando na desconstrução de algo que se pensava ser unânime e perfeito. Isso. All Comes Down trabalha em um ato de consciência que, deliberadamente nos fará experimentar o peso de saber o que é a imperfeição.É um discurso forte e acontece no presente. Não é um discurso imparcial. É um discurso que está vivendo e construindo a partir das suas próprias dores. É como se até o respirar fosse algo complicado diante da verdadeira realidade dos fatos.

Em seguida temos “Talk”. Uma faixa que relata um “eu” vivenciando a nostalgia de um amor mal sucedido, mas que não se prende a ele. Apesar do sentimento de recordação, há um “eu” consciente de que as suas convicções de vida se sobrepõe a um idealismo poético e controverso.

Por sua vez, “Pray” denuncia um “eu” tocado por um contexto emocional marcado por uma grande perda. Ainda que ao longo do disco a banda Kodaline tenha discursado para um caminho de profunda consciência sobre a verdadeira essência da vida, nesta faixa a banda faz questão de explorar uma característica inerente ao ser humano: o sofrimento. Por mais que tenhamos a consciência de que não fomos feitos para sofrer, para sentir dor, não sabemos como evitá-los de uma só vez, ainda mais quando temos uma mente tão traiçoeira e imprevisível.

“Way Back When” demonstra o nível de consciência de um “eu” acerca do seu finito ciclo existencial. Aqui, a saudade aparece como um sentimento superior a qualquer nível de certeza. Porém, a saudade é contemplativa porque não há a menor tentativa de negar a realidade das coisas. De forma muito forte Kodaline deixa sempre transparecer a ideia de que somos provisórios. E, essa característica tão difícil de ser aceita não é motivo para não termos a nossa dose de saudades, ao menos nessa canção.

“The Answer” é uma faixa que aposta em relatar uma relação de “win and lose”.Eu diria que é um relato despreocupado em encontrar respostas. Na verdade, não há uma busca propriamente dita. O que há, e se realmente há, é uma necessidade de se blindar contra a solidão, contra falsas concepções, sobretudo aquelas que nos são impostas.

Já quase no fim do álbum temos a faixa “Perfect World”. Uma canção que trabalha na ideia de um mundo perfeito. Esse mundo é retratado de forma simplista e quase que de forme utópica. Não há uma negação à existência desse mundo perfeito. Ele é venerado e talvez seja o motivo para respirar no meio do nosso próprio caos. Acredito que esse mundo soe melhor em um sentido figurado. melhor. Em um sentido que nos sirva como motivação para seguir em frente, sem nos  perder ao longo dos nossos devaneios existenciais.

A última faixa do disco é “Lose Your Mind”. Nesta canção temos um mundo imaginário descrito por um “eu” possivelmente em algum estado de alteração psicológica (leia-se drogado). É a única faixa que destoa da mensagem global do disco, mas isso não tira o brilho e o peso emocional contido em “In A Perfect World”.

Avaliação Cappuccino: Nota: 9,3.

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