Fogueira Em Alto Mar é, então, essa dualidade que o ser humano carrega dentro de si. Há uma vontade de ir e queimar, mas também há um medo da imensidão, da intensidade do frio, da potência da não reciprocidade.

Escrever sobre um trabalho de um artista envolve uma mútua e verdadeira troca de sentimentos. De um lado há alguém doando arte, alguém que argumenta, de alguma forma, para convencer nossos sentimentos. É um claro convite para que possamos nos abrir para o tempo e a sabedoria. E, quando aceitamos esse caminho, inexoravelmente trilharemos o nosso caminho de evolução.

Evoluir é um caminho sem volta. É ter a certeza de que a involução não é mais a condutora da nossa própria vida.
Essas divagações iniciais são necessárias para quem faz do amor o grande e único tema central de sua vida.
Com o tempo eu percebi que ele, o amor, é palco e nós somos plateia, e ser plateia só tem sentido quando somos capazes de desabafar sem nos perder, sem esvaziar a essência primeira do que somos.

E é muito complexo falar de não se perder quando não há reciprocidade emocional.
Aliás, o tempo e a sabedoria são os meus fortes aliados e eles me permitem afirmar que o amor, sempre o amor, é o combustível de toda a vida, mesmo sem reciprocidade, mesmo que você projete no outro mais do que ele é capaz de te doar.

A falta de reciprocidade nos faz idealizar sem limites, não no sentido absurdo do conceito, mas no sentido poético, racional, mas extremamente poético.
Eu quis divagar essas pequenas reflexões sobre a vida para dizer que tudo bem se o seu amor é unilateral. Tudo bem se você ama alguém incapaz de te notar, de te abraçar, de chorar com você enquanto você o sente nos teus braços. Tudo bem se você ama alguém sem reciprocidade. A grande sacada da vida é perceber e entender o amor como o sentimento mais nobre que existe entre nós. Amar purifica, amar liga, amar conecta, amar é a nossa grande e preciosa chance de sermos essência, aquilo que somos, aquilo que nós fomos ordenados para ser aqui e agora, porque se estamos aqui é porque precisamos estar aqui.

Devaneios existenciais à parte, peço licença para traçar alguns comentários extremamente pessoais sobre o novo disco da cantora Ana Carolina, intitulado “Fogueira Em Alto Mar”.

Fogueira em Alto Mar
Já no título é possível mergulhar em uma efervescência emocional que se parece duelar entre extremos psicológicos. O ouvinte tem a percepção de guerras emocionais, de conflitos, de uma grande luta de alguém que precisa se salvar de uma patente falta, falta de reciprocidade.

Fogueira é quente, é estável, é chama, é calor, é impulso, é atitude, é um olhar reverberado do interno para o externo, sem ponderações, de forma bem intuitiva e muito arriscada.
Alto Mar é movimento, é onda, é frio, misterioso, porém com possibilidades, com caminhos prestes a se tornar conhecido, porém com um “quê” de mistério e perigo.

Fogueira Em Alto Mar é, então, essa dualidade que o ser humano carrega dentro de si. Há uma vontade de ir e queimar, mas também há um medo da imensidão, da intensidade do frio, da potência da não reciprocidade.
Embora essa dualidade seja latente, há uma voz consciente e coerente com a sua história, com o seu nível de evolução emocional.

É que a exposição dessa dualidade pressupõe, ao menos no disco em análise, e ainda que não de forma absoluta um alto senso de equilíbrio, de “selflove“.
Fogueira Em Alto Mar faz um louvável balanço poético sem se perder, sem desmedida, ainda que exista carências afetivas abertas. A verdade é que, embora haja sentimentos emergenciais implorando por falas, o novo disco da Ana sabe ser coerente no seu discurso. A cantora mineira acertou ao apostar em um disco que inspira com a sua força emocional, com o seu nível de maturidade que flerta quase que todo o tempo com uma nostalgia de alguém que ainda é importante, alguém que assumiu uma posição de ser único, de ser brilhantemente o grande amor para quem toda a mensagem do disco é direcionada.

Ana Carolina

Fogueira Em Alto Mar começa com a balada radiofônica “Não Tem No Mapa”. Com refrão fácil, a faixa dá o tom de abertura do disco. Há uma falta, há um diálogo não terminado. Há devaneios de alguém que precisa trilhar caminhos e essa necessidade reverbera na próxima faixa intitulada “Fogueira em Alto Mar”.

Nessa segunda canção, a cantora Ana Carolina mostra o ponto central do disco. Com letra sofisticada, sem o refrão fácil da faixa anterior, há aqui um voz consciente da potência do seu amor e a ausência da reciprocidade não é problema, é solução ou solucionável. Isso é notável quando Ana diz “Eu vou te achar / nem que eu acenda uma fogueira em alto mar“. Claramente há um voz empoderada, no sentido de que a falta de um amor é o ponto de partida para caminhos otimistas e mesmo bem sucedido.

A seguir temos a faixa “O Tempo Se Transforma em Memória”, outra balada romântica que se conecta com a mensagem proposta pelo álbum.
Rompendo com a linha emocional das três primeiras canções, Ana Carolina apresenta a música “Da Vila Vintém Ao Fim do Mundo”, samba que tem os vocais da cantora Elza Soares. Particularmente, achei a música alheia à mensagem do disco. Aliás, é importante ressaltar que essa faixa não valoriza a voz da Elza Soares, uma das maiores vozes da música brasileira, que nessa canção não faz nada além de um “back-vocal” da Ana Carolina.
O disco continua com a música “1296 Mulheres” uma faixa absolutamente desnecessária no álbum e me causa espanto que a cantora Ana Carolina, com mais de 20 anos de carreira, tenha gravado uma música tão trivial como essa.

Se a ideia fosse mostrar uma música empoderada, a Ana esqueceu completamente da sua trajetória musical, da qual ela já fez excelentes canções com esse fim como “Eu Comi A Madonna”, “Homens e Mulheres” e “8 Estórias”.
“1296 Mulheres” é uma balada boba, para quem está começando a carreira, não para uma cantora do calibre da Ana Carolina.
Apesar do disco ter sido bem sucedido nas três primeiras faixas e ter se perdido completamente nos dois sambas seguintes, Ana parece retomar a razão e nos brinda com a linda “Canção Antiga”. Uma canção-desabafo. Um necessidade de silenciar-se sem contudo se involuir. É aqui que o discurso do álbum se reconecta novamente e leva o ouvinte a um seguro momento de reflexão, de reforma íntima, de auto-conhecimento. Há uma voz que reconhece as suas incertezas, mas não se deixa cair por causa delas. Um amor do passado, uma história não acabada, um discurso incompleto, um semi-vazio que pulsa, uma necessidade de voltar e recomeçar, recomeçar pelos erros, pela capacidade de ouvir e entender o outro, uma necessidade e uma possibilidade de reconciliação. Pra mim, é o momento mais alto do álbum.

Em seguida Ana Carolina nos apresenta a faixa “Tudo e Mais Um Pouco” outra balada romântica muito coerente com a proposta do álbum. “Dias Roubados”, retorna ao discurso iniciado em “Canção Antiga” e Ana Carolina mostra porque ela é, sem dúvida, uma das maiores cantores do Brasil das últimas décadas.
“Outra Vez Você” também merece atenção do ouvinte. Uma balada romântica que não foge de suas responsabilidades perante o disco.

Já em “Com Vista Para Amar” a Ana aposta em uma balada pop romântica, o que dá maior frescor ao álbum e o qualifica como um álbum contemporâneo e pelo menos aqui, solar.
A última faixa do disco, uma regravação, Ana aposta em “O Que É Que Há” para selar com chave de ouro a breve, mas lúcida mensagem do disco.

Fogueira Em Alto Mar é um disco coerente, com alguns erros em duas faixas, mas no geral é um disco mediano.
Aliás, o novo trabalho da cantora recupera a imagem da Ana Carolina, após o lançamento do estranho #AC.

Avaliação Cappuccino: Nota: 8.0.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s